Histórias de Parnamirim

Durante a II Guerra Mundial, a Base Americana de Parnamirim editou, semanalmente aos domingos, um pequeno jornal.
Recentemente, por intermédio do Jornalista Luiz Maria Alves do Diário de Natal, obtivemos uma coleção completa de cópias desse jornal, o Foreign Ferry News.

Da edição de 21 de maio de 1944, extraímos o artigo que transcrevemos a seguir:

" Desde há muito, um importante aeródromo internacional, Parnamirim começou suas atividades nos anos 20, quando os vôos transatlânticos eram aventuras vividas apenas pelos grandes pioneiros da aviação.
Paradoxalmente, alemães, italianos, hoje nossos inimigos, foram, em grande parte, os responsáveis por esse pioneirismo que resultaria na estruturação da Base, que hoje, está contribuindo significativamente para a derrota do Eixo.

A história do Campo de Parnamirim, desde a chegada americana, é parte da história do Comando de Transporte Aéreo, um dos segmentos mais novos da Força Aérea Exército e uma das mais expressivas contribuições americanas para se vencer esta guerra.
A posição estratégica de Natal na saliência do continente que se projeta no Atlântico Sul, tornou esta localidade extremamente importante, mesmo antes das necessidades da guerra o demonstrarem. Natal em sido denominada a "encruzilhada do mundo" e hoje a cidade é reconhecida internacionalmente como o ponto mais famoso do "Corredor da Vitória"
(1).
Através desta Base têm passado milhares de aviões de caça, de bombardeio e de transporte destinados às frentes de batalha (2).

Celebridades do mundo político, militar e artístico, obrigatoriamente passam por aqui, fazendo de Parnamirim um oásis de alegria em meio à tristeza da guerra.
Os Presidentes Roosevelt e Vargas aqui se encontraram e, recentemente, tivemos o trânsito de Mrs. Roosevelt e de inúmeros artistas de Hollywood.

Pode parecer que foi há muito tempo mas, em verdade, poucos meses se passaram desde que aqui pousaram os B-17 que deveriam ter bombardeado Tokyo de Bases secretas na China, simultaneamente, com os B-25 de Doolittle que foram lançados do porta-aviões Hornet. O Cel Robert Scott menciona no seu livro, Deus é meu Copiloto, a passagem por Natal e a viagem subseqüente que terminou em desapontamento por terem os japoneses capturado essas Bases secretas.
Essa, e muitas outras manchetes como, por exemplo, a ponte-aérea do Comando de Transporte Aéreo suprindo munição 75mm para o Oitavo Exército Britânico a fim de "salvar o dia" em El Alamein, são parte da história de guerra de Parnamirim.

A Latecoère - fabricante de vagões que se tornou fabricante de aviões - criou a primeira linha aérea que ligou o Brasil a outros países.
Os franceses primeiro voaram de Toulouse para Barcelona. Da Espanha partiram para a África de onde voltaram os olhos para a América do Sul. Em 1925, foi inaugurada a linha Rio - Buenos Aires. Logo a seguir, a linha se estendia de Recife, no Norte, à capital argentina no Sul.
Pouco depois, durante uma viagem exploratória ao Nordeste, Parnamirim foi considerada pela primeira vez como possível local para um aeródromo. Em 18 de julho de 1927, Paul Vauchet, um dos pilotos da Latecoère pousou na Redinha do outro lado do Rio Potengi e, à tarde, decidiu, na casa do Consul francês, que deveriam procurar um local para pouso nas vizinhanças.
O Cônsul solicitou a ajuda do Comandante do Regimento do Exército Brasileiro em Natal que os conduziu, no outro dia, ao seu campo de treinamento.
Ao examinar o local, Vauchet concluiu que ali poderia pousar sem grandes riscos.
Logo, uma área de 800m
2 foi preparada ao custo de U$600 e, em 14 de outubro de 1927, às 23:45, o famoso "Nungesser et Coli" da Latecoère, pilotado por Costes e Lebrix, inaugurou o campo, tendo sido voada a rota São Luiz do Senegal - Natal na primeira travessia leste-oeste, de continente a continente, do Atlântico Sul.

Uma pequena pista de terra em meio à mata recebia o seu primeiro freguês e Parnamirim começava o seu caminho para tornar-se a grande Base que é hoje. "

Notas:

(1) Em verdade, Natal, nos meios internacionais, foi conhecida como um dos extremos do Corredor da Vitória, termo este de autoria do Embaixador Jefferson Caffery que representava os Estados Unidos no Brasil. A denominação de Trampolim da Vitória foi uma criação brasileira cuja origem nos é ignorada.

(2) A partir de outubro de 1943, quando Portugal autorizou a construção de uma Base americana nos Açores, o trânsito dos grandes aviões de bombardeio com destino à Europa e Pacífico ficou dividido com o Atlântico Norte. Os aviões de menor autonomia, entretanto, continuaram a passar por Natal.