É mais ou menos
generalizado o conhecimento de que, durante a Segunda Guerra
Mundial, os americanos tenham estabelecido algumas bases de
aviação no Brasil, especialmente no Nordeste, com o
objetivo-maior de fazer a travessia para o Teatro de Operações
europeu.
Natal se celebrizou como o "Trampolim da Vitória" e
por lá passaram, entre ida e volta, alguns milhares de aviões
aliados. Fortaleza também teve a sua participação e por
Belém, passaram todos, com um movimento, por conseguinte, maior
do que o de Natal.
Mas o que é quase
ignorado ou, pelo menos, se conhece pouco, é a participação da
Aviação Naval americana na guerra antisubmarina no Atlântico
Sul, a partir do nosso litoral.
Estiveram baseados no nosso país Esquadrões de Catalinas
(PBY5), Venturas (PB1), Martin Mariners (PBM3), Liberators (PB4Y)
e Blimps (Mod.K).
O primeiro
Esquadrão da US Navy a chegar ao Brasil foi o VP-52. Os
Esquadrões de vôo da US Navy, até hoje, são identificados por
uma sigla alfanumérica cujo primeiro símbolo é sempre a letra
V e o segundo, a letra designadora da missão da Unidade, sendo o
numeral subseqüente a sua identidade. Logo, o VP-52 era uma
Unidade de Patrulha. No dia 11 Dez 41, quatro dias, portanto,
após o ataque a Pearl Harbor, amerissavam no rio Potengi em
Natal alguns hidroaviões Catalina desse Esquadrão que passaram
a operar da Rampa. Era apenas um Destacamento cujo comando havia
permanecido no Panamá.
Com a chegada ao Campo de Parnamirim do Esquadrão VP-83, com os
novos PBY5 anfíbios, os hidroaviões do VP-52 voltaram para sua
sede na Zona do Canal.
O VP-83, com Catalinas, e posteriormente redesignado VB-107, com
Liberators, permaneceu em Natal de 07 Abr 42 até 08 Jan 45 e se
tornou a mais destacada Unidade de Patrulha/Bombardeio da US Navy
na Segunda Guerra Mundial, tendo, inclusive, sido condecorada com
a Presidential Unit Citation.
Ao todo, a Unidade afundou diretamente 06 submarinos alemães
(tendo sido partícipe do afundamento de outros 02) e 01
submarino italiano. Durante o período, foram perdidos 03
Liberators para a ação antiaérea inimiga (02 para submarinos e
01 para um navio "furador de bloqueio").
Aliás, para se
ter uma idéia da dimensão da luta contra os submarinos do Eixo
no Atlântico Sul, deve ser dito que a US Navy perdeu 44
tripulantes em ação contra o inimigo durante a operação no
Brasil.
As seguintes Unidades operaram no nosso país subordinadas à
Fleet Air Wing 16, que por sua vez estava sob o comando da Quarta
Frota Americana, com sede em Recife:
- Esqd VP-83/VB-107- Sede Natal; 12 PBY5/ 12 PB4Y; Abr 43 a Jan 45
- Esqd VP-74 - Sedes Rampa/Aratu; 12 PBM3; Mar 43 a Out 43
- Esqd VP-94 - Sedes Natal/Belém/Maceió/Salvador; 15 PBY5; Jan 43 a Dez 44; os Catalinas deste Esquadrão foram entregues para a FAB no Galeão em 12 Dez 44.
- Esqd VB-127 - Sedes Natal/Fortaleza Pici; 12 PV1; Mar 43 a Set 43; o Ventura que caiu na foz do rio Potengi e do qual nos fala Gustavo Wetsch em artigo anterior era deste Esquadrão.
- Esqd VB-129 - Sedes Natal/Recife/Salvador; 12 PV1; Jun 43 a Fev 44; o Ventura encontrado na Baía da Traição era deste Esquadrão (desapareceu em 19 Jun 43)
- Esqd VB-130 - Sede Fortaleza Pici; 12 PV1; Ago 43 a Mai 44
- Esqd VB-143 - Sedes Recife/Salvador; 12 PV1; Ago 43 a Mai 44
- Esqd VB-145 - Sede Natal; 14 PV1; Set 43 a Jan 45
- Esqd VB-211 - Sedes Galeão/Aratu/Natal; 12 PBM3; Set 43 a Mai 45
- Esqd VP-203 - Sedes Aratu/Galeão; 12 PBM3; Out 43 a Mai 45
- Esqd VB-134 - Sedes Recife/Natal; 14 PV1; Jan 44 a Mar 45
- Esqd Vp-45 - Sedes Belém/Salvador; 15 PBY5; Abr 44 a Mai 45
- Esqd VPB-126 - Sede Natal; 12 PV1; Jan 45 a Mai 45
- Esqd VPB-125 - Sede Natal; 12 PV1; Fev 45 a Abr 45
Subordinados à
Fleet Airship Wing 4, também sediada em Recife, operaram dois
Esquadrões de Blimps, o ZP-41 e o ZP-42, cada um com 08 Blimps
Mod. ZNP-K.
Esses Esquadrões de aeronaves mais-leves-que-o-ar foram
verdadeiros nômades entre a chegada ao Brasil em Set 43 e o
regresso para os EUA em Jul 45. Os Blimps operaram de Igarapé
Assú, São Luís, Fortaleza Pici, Noronha, Maceió, Salvador,
Caravelas, Vitória e Santa Cruz, com destacamentos permanentes
nestes locais.
É interessante anotar que a FAB enviou tripulações para
treinamento nos EUA e estava prevista a entrega dos Blimps do
Esquadrão ZP-41 à Unidade brasileira que seria criada (o que
acabou não ocorrendo).
Não se sabe até hoje se por sorte ou por azar nenhum Blimp
jamais chegou a se defrontar com qualquer submarino inimigo,
embora eles hajam participado ativamente do acompanhamento de
comboios. Os resultados de um possível confronto certamente
seriam duvidosos, principalmente após os submarinos adotarem a
tática de permanecer na superfície e combater ao serem
detectados.
Oportunamente voltaremos ao assunto com informações específicas sobre as missões voadas pelos aviadores americanos no Brasil, porquanto existem episódios fascinantes para serem contados.