Aviões Brancos no Atlântico Sul (4)

No artigo "Aviões Brancos no Atlântico Sul II" , fizemos uma digressão sobre a unidade de patrulha da US Navy VP-83/VP-107 e seus feitos durante a operação em Natal de 1942 a 1944.
Mencionamos na ocasião havermos, ademais, trocado correspondência com alguns membros desse esquadrão.
Diversos leitores manifestaram interesse em saber mais sobre o assunto e conhecer o teor desta correspondência, de modo que aqui vão os fatos: por volta de 1984/85, a revista americana Warbirds International (não tenho o exemplar pois alguém levou emprestado e não devolveu) publicou um artigo nosso sobre a atividade americana em Natal durante a guerra, no qual pedíamos contato com quem por lá tivesse andado.
Dentre algumas cartas recebidas, havia a de um metralhador do VP-83 que fora tripulante do Catalina que afundou um submarino alemão em 1943. Pela data informei a ele que o submarino em questão fora o Archimede italiano e lhe enviei um enorme questionário com uma planta americana da Base acompanhada de fotos da atualidade.
Esse cavalheiro, Seymour Lauber, levou minha carta e o material à reunião do Esquadrão. Logo a seguir recebi a seguinte carta de Paul Richter:

17 Out 86

Prezado Coronel,

Eu estive recentemente em Pensacola, na Flórida, onde se reuniu o Esquadrão VP-83/VB-107. Seymour Lauber(1) apresentou a sua carta para o Grupo juntamente com as interessantes fotografias da Base de Natal como ela é hoje. Você mencionou seu interesse em obter uma foto da "Virgem de Macahyba". Tendo sido um dos membros da tripulação eu lhe estou enviando uma foto há muito guardada. O comandante do nosso avião, o então Tenente William R. Ford também estava na reunião e disse que iria lhe escrever para contar alguma coisa da história do Esquadrão. Ele tem inclusive uma carta do prefeito de Macahyba e pretende lhe enviar uma cópia. Dois outros tripulantes que estão na foto também estiveram na reunião: FR Burgess e RL Damiano.

Eu estou enviando uma cópia da sinopse sobre o Esquadrão publicada no jornal "Naval Aviation News". Ela contém alguns erros mas traça um quadro bastante real da história do Esquadrão. Também estou incluindo uma cópia da Citação Presidencial que o Esquadrão recebeu.

Na sua carta você menciona a Rampa algumas vezes. Nós tínhamos um destacamento lá, mas raras vezes operávamos nossos aviões do local. Quem o fez foi o VP-52(2) antes da nossa chegada com os Catalinas hidro. O VP-74(3) também operou de lá com os seus PBMs, mas eles logo deixaram Natal em vista das dificuldades de manter o complicado avião no local. Nós realmente tivemos torpedos estocados em Parnamirim, mas nunca os usamos. Nossos PBY(4) eram anfíbios (PBY-5A) e por isso nós operávamos de Parnamirim com muito maior eficiência.

O VP-83 voou PBY-5A até junho de 43, nesta data a designação do Esquadrão mudou para VB-107 e o PBY foi substituído pelo PB4Y-1, que era o Liberator B-24D, com 04 metralhadoras livres no nariz. A "Virgem de Macahyba" era um destes. Como você pode ver na foto nós só levávamos duas, que eram usadas durante o ataque aos submarinos. Existia também uma torre dupla de .50 na parte superior da fuselagem logo atrás da cabine. Era a "torre coroa", minha estação, que também atirava para frente durante os ataques. Mais tarde estas aeronaves foram substituídas pelo modelo B-24J que tinha uma torre no nariz com duas metralhadoras. O PBY normalmente carregava 04 bombas de profundidade de 500 libras externamente nas asas. O B-24 normalmente levava 08. Em uma seção do bomb bay era carregado um tanque auxiliar de combustível.

Eu pessoalmente cheguei em Natal na noite de 13 jun 42. Eu me lembro bem desta noite. Nós havíamos realizado uma patrulha no mar, vindo de Belém, e chegamos em Natal em meio a uma tempestade. Nós não conseguíamos que Parnamirim colocasse no ar o seu rádio-farol nem o farol rotativo (falou-se na época em sabotagem) e o resultado foi que uma das aeronaves, incapaz de achar o campo, caiu no mar. Os destroços e três sobreviventes foram encontrados no dia seguinte no litoral ao norte de Natal.

Eu permaneci com o Esquadrão em Natal até novembro de 1944 (30 meses). A maior parte das operações em 44 foi voada a partir da Ilha de Ascencion(5). Nós voltávamos à Base de Natal apenas para manutenção periódica.

Eu tenho boas memórias do Brasil mas também algumas tristes. Nós perdemos 03 aviões com tripulação completa para os alemães: 02 para submarinos e 01 para um "furador de bloqueio"(6). Nossa estatística contra eles, entretanto, foi bem razoável, como pode ser visto na Citação Presidencial.

Grande parte do nosso primeiro ano foi gasta cobrindo os comboios com o PBY ao longo do litoral brasileiro. Isso nos permitiu fazer visitas freqüentes às cidades do Amapá(?), Belém, São Luís, Fortaleza, Recife, Maceió, Bahia, e claro, o Rio. Estes pernoites eram muito agradáveis porquanto geralmente nós éramos os únicos marinheiros americanos na cidade. Minha última visita ao Brasil foi em 1952 como tripulante de um R4D-8 (Super DC-3) que escoltou 09 HellCats(7) uruguaios de Miami para Montevidéu. Nós paramos em Belém, Fortaleza, Natal, Bahia, Caravelas, Rio e Porto Alegre. Foi uma ótima viagem.

Quanto à "Virgem de Macahyba", ela se tornou uma madame em 23 Jul 43(8) quando nós participamos do afundamento de um submarino ao largo da costa. Ela sofreu um enrugamento de asa durante a recuperação de um dos ataques. Mais tarde nós a levamos de volta para os EUA onde ela foi desativada. Seu nome foi escolhido porque alguns dos marinheiros do Esquadrão adorávamos fazer escapadas não autorizadas àquela cidade, onde as coisas se tornavam bastante interessantes depois do pôr-do-sol. A grande motivação para o nome, foi entretanto, provavelmente o fato de que a freqüência de pessoal da US Navy ali estava proibida. Conseqüentemente, eram freqüentes as patrulhas da polícia militar dos Fuzileiros Navais: os espiões deles informavam que nós estávamos lá e os nossos espiões nos informavam que eles estavam vindo, de forma que tudo se resolvia pacificamente. Para chegar a Macahyba de Parnamirim nós tínhamos de dirigir, normalmente um jipe, através do cerrado, tendo inclusive que atravessar um pequeno riacho no caminho. Quero crer que os arquivos oficiais da US Navy devam possuir uma versão mais leve de como o avião obteve o seu nome. Se algum dia você publicar alguma coisa sobre o assunto, talvez seja melhor usar a versão deles.

Você mencionou o lago ao sul de Parnamirim(9). Nós o usávamos para praticar amerissagens com os nossos Catalinas. Era também um ótimo local para limpar os nossos cascos com água doce após longos vôos sobre o mar.

Com respeito aos PVs Venturas: havia 02 Esquadrões baseados em Natal (VB129 e VB145) em fins de 1943 e 44. Devido ao seu pequeno raio de ação, eles não eram muito eficientes e, tanto quanto eu sei, não chegaram a engajar combate com os submarinos inimigos(10).

Nós apreciamos o seu interesse pelo nosso Esquadrão e que outros membros façam contato. É meu sonho algum dia voltar ao seu país. Devo confessar que minha cidade favorita era Fortaleza.

Respeitosamente,
Paul Richter
LCdr, USN (Ret)
7795 Highgate Lane
La Mesa, CA

(1)-Seymour Lauber: foi o primeiro contato que tivemos com algum membro do VP83/VB107. Tendo lido um artigo nosso publicado na Warbirds International Magazine sobre a Base de Natal entrou em contato conosco em 1985. Ele era tripulante do Catalina que afundou o submarino italiano Archimede.
(2)-VP52: Esquadrão sediado no Panamá que destacou 06 Catalinas hidro para Natal logo após Pearl Harbor. Os 06 aviões chegaram na Rampa em 11 Dez 41, e deixaram Natal com a chegada do VP83.
(3)-VP74: Esquadrão equipado com PBM-3 Martin Mariner. Operou da Rampa de Natal, de Aratu, do Galeão e de Belém.
(4)-PBY: Era o nosso conhecido Catalina. Os aviões do VP52 só operavam na água, daí a razão de ficarem na Rampa. Os do VP83 eram os PBY-5A, anfíbios mais modernos, e operavam de Parnamirim.
(5)-Ilha de Ascencion: ponto estratégico situado no meio no estreito do Atlântico Sul. Foi uma importante base americana durante a guerra, servindo de ponto reabastecimento para os aviões de menor autonomia que faziam a travessia. Foi também um ponto chave no patrulhamento do Atlântico Sul, cabendo à US Navy e à FAB o lado brasileiro e à RAF o lado africano.
(6)-"furador de bloqueio": navios cargueiros usados para tentar levar para a Alemanha materiais estratégicos. Normalmente operavam sob disfarce e fortemente armados.
(7)-Hellcat
: avião de caça da Grumman F6F, amplamente utilizado na guerra no Pacífico.
(8)-23 Jul 43: data de afundamento do U-598.
(9)-lago ao sul de Parnamirim: Lagoa do Bonfim, ao sul de Parnamirim, também conhecida como Navy Lake pelos americanos durante a guerra.
(10): Na realidade foram inúmeros os combates travados pelos PV-1 Ventura contra os submarinos alemães, sendo inclusive creditado o afundamento do U-591 ao Esquadrão VP-127.