Divagações sobre Segurança de Vôo

É bastante comum nós vermos pilotos com relativa inexperiência voando parapentes de alta performance em São Conrado e se divertindo a valer nos dias em que somos brindados pelas suaves farofas alísias a que estamos acostumados. E os foi observando um dia desses, que eu comecei intimamente a filosofar comigo mesmo.
E a primeira coisa que me veio à mente foi definir o que vem realmente a ser um piloto experiente ou, pelo menos, relativamente experiente. Melhor dizendo até, um piloto maduro. Depois de refletir bastante, especialmente me reportando a alguns incidentes ocorridos durante o Torneio Fourteen realizado em BH, concluí por alguns poucos, mas abrangentes requisitos que espero levem à reflexão essa turma mais afoita que anda esbanjando saúde por aí. Se não, vejamos:

Um piloto experiente:

Seguramente, para ser um piloto experiente não basta ter muito tempo de vôo (lembro de um piloto de avião não muito habilidoso no meu passado que gostava de se exibir para os mais novos anunciando possuir quinze mil horas de vôo, sem nunca ter chegado a saber que nós dizíamos, à suas costas, que haviam sido quinze mil horas sedimentando erros e vícios de pilotagem).
Um piloto com um ano de atividade, por sua vez, dependendo do tipo de vôo e do local onde voa, pode já ter acumulado experiência suficiente e adquirido a confiança necessária para voar em condições muito mais fortes do que um outro bem mais antigo.
Por essas e outras, é que devemos usufruir do nosso lazer com muita moderação e bom-senso. O fato de voarmos um parapente de alta performance no Pepino não significa, necessariamente que o voaremos com segurança na face da Santa em Valadares ao meio-dia. Como, também, não significa que, por vermos um piloto mais novo voando um parapente de alta em Andradas, Belo Horizonte ou Valadares, nós estaremos aptos a acompanhá-lo, principalmente se ele é do local e está habituado a voar na hora da pauleira.
O fato de já se possuir experiência de outros tipos de vôo, também não garante a ninguém segurança nas horas da verdade. Pode sim dar uma vantagem apreciável sobre quem não a tem, permitindo, sobretudo, um progresso muito mais acelerado. Portanto, atenção pára-quedista e piloto de asa. Evolua com calma e prudência.
Para os cariocas que começam, em particular, um conselho especial: não queira acompanhar o pessoal que voa habitualmente no interior antes de ter muita hora de esquina. Não adianta ficar aborrecido porque um paulista ou um mineiro com o mesmo tempo de vôo que você está voando em condições que não são as suas. Em compensação, eles, provavelmente, ficam muito pouco à vontade quando têm de decolar sem vento no Pepino. Que cada um fique na sua, sem arroubos de vaidade. Há que se reconhecer que o vôo deles é outro e muito mais exigente.

E nunca é demais lembrar que um curso de emergências com o Delfim em São Paulo não é tão caro assim e é um handicap enorme na maturação de um piloto.

Mas o principal mesmo é ter em mente um aforismo clássico em aviação:
"Se alguma coisa pode dar errado e não funcionar, podes ter certeza que um dia vai acontecer. E a única lei eterna e que sempre prevalece na atividade aérea é a Lei da Gravidade".

Quanto mais preparado você estiver para lidar com essa verdade, melhor para você. Tem muita gente voando parapente de alta por aí que jamais pensou nisso. Acreditar que emergência só acontece com os outros é uma ingenuidade franciscana. A atitude positiva e certa é acreditar que ela vai ocorrer é com a gente e estar preparado para enfrentá-la.