Estórias que a Caça não contou:
O Bacalhau Voador

Era final de 92 e nós estávamos voando de Brasília para Natal, onde faríamos a outorga do Troféu "Instrutores de 1966" ao Estagiário mais Eficiente do Curso de Piloto de Caça que se encerrava.
Dos 16 instrutores que seguraram a barra lá em Fortaleza na Sorbonne da Caça em 66, ainda estamos por aí 13. Nos deixaram o Fleury, o Zé Areal e o "Azul" Gonçalves.
A bordo do Bandeirante íamos o Blower, o Villaça, o Celestino, o Starling e o Jac Bac. Nos conduzia o nosso jovem Comandante, Lauro Menezes. Pifaram o Veiga, Marees, Felinto, Chagas e Salazar. O Raposo foi direto do Rio para Natal.
O Jac Bac era o Operações do Esquadrão naqueles tempos de 66 e para nós, de Santa Cruz, que não o conhecíamos, foi uma experiência enriquecedora conviver com ele. Suas estórias, no entanto, já eram do nosso conhecimento desde há muito. O cara realmente era e é uma figura como poucas, um tipo inesquecível.

Comecemos pelo nome, Marcos Silveira, e o apelido, Bacalhau. Acho que foi o Blower que, reagindo a agressiva sonoridade do apelido, o modificou para Jac Bac. E o negócio colou. Para nós de 66 ele é, carinhosamente, o Jac Bac até hoje.
Sem sombra de dúvida, houvesse ele sido contemporâneo dos grandes pioneiros, teria seu nome inscrito nos anais da história da aviação. Além de exímio piloto, o que mais nos impressionava era a absoluta tranqüilidade com que ele se havia nas mais incríveis emergências(algumas, há que ser fiel à verdade, que ele mesmo, com suas maluquices, criava) e a sua absoluta vocação para a aventura.

Uma vez , numa decolagem de 12 aviões, um estagiário saiu da reta lá na frente e deixou o remú direto para o Bac lá atrás. O TPA (tanque de ponta de asa), abastecido com 150 galões, bateu na pista e voou longe. Para um piloto normal, seria catástrofe certa. Na melhor das hipóteses, em se safando, ele voltaria apavorado: o F-80 era impilotável à baixa velocidade com tamanha assimetria de peso. Para o Bac, foi um acontecimento absolutamente corriqueiro. Com aquela delicadeza que lhe era peculiar, ele entortou o avião e saiu rasante de lado, todo derrapado, até ganhar velocidade e retornar para o pouso. E sem sequer alijar o outro tanque(no T-33, com o AutoDrop ligado, o alijamento seria automático: saía um, saía o outro; no F-80, havia que comandar)!!

Em outra ocasião tivemos aquele apagamento de motor na demonstração de 23 de outubro na Praia de Boa Viagem. A turma do Armamento da Base havia caprichado nos alvos e misturado um pouco de pólvora à gasolina nos tambores.
Eu, Segurança de Vôo do Esquadrão e coordenador da demonstração, bem que avisei para a galera não atirar de perto. No que fui apoiado incondicionalmente pelo Bac, que era o líder do vôo.
Não deu outra. Ele atirou na cara do alvo, houve uma tremenda explosão e o F-80 saiu do outro lado rasante sobre o mar. Depois ele explicou que havia sido necessário manter o rasante para preservar a velocidade e não perder rotação enquanto era dada nova partida! O motor havia parado e ele executava a complicada seqüência de partida no ar do F-80 (automatismo, só muito mais tarde com a nova geração de T-33).

Mas foi durante o vôo para Natal que eu soube de uma que me era desconhecida.

Ele havia saído de Fortaleza e estava servindo no Parque em Recife. Um dia, saiu para fazer uma experiência de B-26 e resolveu dar uma voltinha, logo ali, no Atol das Rocas !
Ele era metido a mergulhador e parceiro contumaz do Bill lá em Noronha (este era um cozinheiro paraibano que aprendeu a mergulhar com os americanos que andaram pela ilha no início do programa espacial e ficara famoso com as loucuras sub-aquáticas que aprontara).
Não esqueço o episódio do mergulho que ele fazia com o Marquinhos(que devia ter uns 10 anos) na ponta sudoeste da ilha, naquele paredão que parece descer para o fundo do mundo (bem em frente ao Buraco do Diabo).
Foi quando apareceu um enorme tubarão branco (ele fala em 10 metros; dando o desconto do pescador aceitemos cinco). Cruzaram frente com afastamento lateral e bicho curvou para o lado da dupla.
Diz o Bac que só havia uma coisa a fazer: engajar combate. Ele comandou Ataque 2 para o Marquinhos e fechou a curva para cima da fera. Depois de algumas enroscadas sem vantagem para ninguém o inimigo desistiu e separou indo embora !
Ainda sobre mergulho, ele dizia não gostar de sair com o pessoal de Recife por que eles mergulhavam em navios afundados em locais de água suja, havendo que descer agarrado a um peso até uns 30 metros sem saber exatamente o que havia lá embaixo, nem mesmo ao chegar ao fundo.
O que ele gostava era de mar aberto. Era suficiente entrar no meio dos cardumes sob ataque das gaivotas mergulhando para sair embaixo onde estavam os grandes predadores. Aí era só escolher e mandar bala, embora às vezes ocorressem surpresas assustadoras.

Pois é, mas voltando à Rocas...
Depois de curtir o visual , resolveu cumprir os itens do vôo de experiência e embandeirou um motor, desembandeirou e repetiu com o outro. Só que aí, houve um disparo de hélice e o melhor que ele conseguiu foi retornar ao embandeiramento inicial.
Ele até que disse ter sentido um pouquinho de receio e solidão lá no meio do oceano(naturalmente, ele estava voando solo). Como a situação não tinha mesmo jeito, ele tomou o rumo de casa e botou a boca no trombone tentando se comunicar com alguém. Foi atendido por um Pan Am que voava de Dacar para Recife.
Ao informar a emergência, o americano teve o maior chilique no rádio e, na maior adrenalina, procurou manter a moral do Bac dizendo que havia sido piloto de B-26 na guerra e que compreendia a situação, que o Bac tivesse calma, que tudo ia acabar bem, que o avião não merecia a fama, etc etc etc. E o Bac sem entender direito o porquê de tanto "auê".
Despediram-se pelo rádio, muito depois, com o aeroporto à vista. E o Bac só veio a compreender o trauma do gringo 25 anos depois.
O avião que a FAB chamava de B-26 havia sido, na guerra, o A-26 Invader. Um excelente avião, confiável e estimado por todos que o voaram. A FAB os teve, primeiro em Natal, depois em Recife e finalmente em Cumbica, voando bombardeio, ataque e reconhecimento.


O A-26 Invader, na FAB chamado de B-26


O B-26 Marauder na 2a Guerra Mundial


O verdadeiro B-26 foi um bimotor da Martin chamado Marauder. Os primeiros modelos da série A, foram tão tenebrosos que granjearam para o avião o apelido de Widow Maker(Fazedor de Viúvas). Daí o trauma do piloto americano. Ele havia sido um sobrevivente do B-26 e certamente achava que o Bac ia entrar pelo cano.

O Jac Bac hoje é um pacato empresário em Goiânia(há que ver para crer). Eu sei, por exemplo, que não faz muito, ele andou voando no garimpo em Roraima e que tem estórias de arrepiar por lá.

Um dia ele conta...