Airtime - Coluna do Parapente

G-LOC de Parapente?

Foi no início dos anos 80 que apareceu a geração atual dos aviões de caça que, projetados para serem deliberadamente instáveis, são mantidos sob controle através do uso de computadores.
A partir do advento dessas novas máquinas, tornou-se possível a execução de manobras de combate extremamente agressivas, capazes de ultrapassar, em muito, os 7,33Gs até então aceitos como limite-padrão de aceleração centrífuga.
Por essa razão, os projetos foram redimensionados e os limites estruturais subiram para 9G. E para conseguir que o piloto resistisse melhor a esse novo nível de aceleração, o encosto do assento foi inclinado 30 graus para trás, de modo a evitar que a aceleração atuasse no exato sentido longitudinal do corpo.

Pensava-se que assim o assunto estaria resolvido, quando começaram a ocorrer acidentes inexplicáveis com aviões executando manobras de alto G à baixa altura. Quase sempre, dando a impressão de que o piloto estaria incapacitado até o crash.
Depois de muito pesquisar, a USAF concluiu que essa nova geração de aviões era capaz, não só de atingir valores de G extremamente elevados, mas também de chegar a esses valores de forma muito mais rápida do que antes. A bem da verdade, quase que instantaneamente.
Descobriu-se então que, embora o piloto, na cadeira inclinada e usando traje anti-G, fosse capaz de suportar lúcido 9G, esse valor, quando atingido instantaneamente, surpreendia o organismo que, desprevenido, não tinha tempo de se adaptar às novas exigências.
A explicação é que quando se é submetido a altas acelerações positivas (da cabeça para os pés) e o organismo consegue se programar, há uma natural vaso constrição para dificultar que a circulação flua da cabeça para o tronco e o coração passa a bombear mais forte para manter o cérebro devidamente suprido de oxigênio.
O sistema anti-G, que funciona de forma progressiva à medida que a aceleração aumenta liberando ar comprimido para o abdômen e para as pernas a fim de evitar que o sangue desça para os membros inferiores, também se via surpreendido e não atuava, se não depois do fato consumado.
O resultado era a falta de irrigação do cérebro, induzindo ao fenômeno chamado de G-LOC (
G Loss of Conciousness - Perda de Consciência por G), ou seja, ao apagamento direto do piloto, sem passar pelas fases intermediárias de visão-cinza e black-out a que ele estava acostumado(o piloto, ao sentir esses sintomas, normalmente, "afrouxa um pouco a mão" diminuindo o G e recobra a visão, não chegando a apagar).
O problema do G-LOC é que, depois de um apagamento, pode-se levar mais de 1 minuto para recobrar a consciência uma vez cessada a aceleração(quem pratica jiu-jitsu já viu isso). À baixa altura, em curva e à alta velocidade, invariavelmente, a situação terminava em desastre.
A solução encontrada foi o endoutrinamento dos pilotos para não comandarem grandes acelerações bruscamente. Resumindo, evitar a "mão pesada".

Em 1995, um piloto de ensaio, testando um parapente durante uma sessão de homologação, entrou em uma curva centrifugada acelerando o giro progressivamente. Depois da segunda volta, o giro aumentou rapidamente e, pouco a pouco, ele perdeu a consciência. Ainda a 400 metros de altura, o parapente o continuou centrifugando até que, aparentemente, seu organismo se adaptou à aceleração e aumentou a pressão sanguínea. O suficiente para que o cérebro fosse novamente irrigado. O piloto reagiu e jogou o reserva. Após a aterragem, uma amnésia parcial o acometeria ainda durante algumas horas, mas seu depoimento posterior foi de extrema valia.
Outros incidentes semelhantes também ocorreram com alguma freqüência durante o ano em outras localidades e, recentemente, na França, um piloto de parapente foi visto entrando em uma curva radical centrifugada e nela continuar sem qualquer reação até colidir com o terreno.
Uma pesquisa sobre o fenômeno levou a que se concluísse, do mesmo modo que no avião de caça, que não foi o valor de G durante as curvas centrifugadas que fez os pilotos apagarem, mas sim a rapidez com que esses valores foram atingidos. Mesmo considerando que esses valores estão muito abaixo dos 9 G de um F-16, uma carga brusca, e depois continuada, de 3/4 G pode, dependendo do estado físico do piloto, induzí-lo a um G-LOC (há que considerar que o nível de fadiga, o nível de alimentação, o estado de hipoglicemia e outros inúmeros fatores fazem com que um indivíduo reaja de forma diferente de outro; cada um é cada um).

Mas o que teria provocado essa espiral continuada até o solo?
Para se compreender melhor a análise desses acidentes, mister se faz que se saiba um pouco sobre estabilidade espiral.
Um parapente pode ser, no que concerne à estabilidade espiral, estável (estabilidade positiva), neutro (estabilidade neutra) ou instável (estabilidade negativa).
Quando se tem uma estabilidade positiva, ao se soltar os freios em uma espiral, o parapente sai por conta própria e retorna ao vôo nivelado.
Quando se tem uma estabilidade neutra, o parapente se mantem na espiral com a mesma razão de curva ao se soltar os freios e precisa ser comandado para sair da curva.
A estabilidade negativa ocorre quando o parapente, liberados os freios, acelera a espiral.
Philippe Lami, articulista da Revista Parapente Mag, ao analisar o resultado da investigação desse acidente ocorrido na França(e de outro exatamente igual ocorrido com um instrutor alguns meses antes na Suíça) especula sobre alguns fatos e hipóteses e formula algumas indagações:

- O piloto teria apagado após 3 ou 4 giros de 360 graus, daí a sua falta de reação.
- O parapente acelerou a razão de giro, após o apagamento do piloto, por ter estabilidade negativa.
- Ao se verificar a ficha de homologação do parapente se constatou que ele era neutro de estabilidade, necessitando, portanto, de ação do piloto para sair da curva centrifugada.
- Será que o piloto tinha conhecimento dessa característica do parapente?
- Por que não tornar mandatório incluir no manual do parapente a ficha completa de homologação?

Outro elemento de discussão importante que aflorou na investigação foi a questão da regulagem da abertura da ancoragem (abertura do tirante do peito que varia a distância entre os mosquetões). Embora o parapente em questão fosse efetivamente neutro de estabilidade, concluiu-se que, dependendo do quanto se aumentasse a abertura de ancoragem, ele tendia a ficar negativo(no caso do acidente, a abertura era de 50cm, acima da recomendada pelo fabricante). O que significa que, uma vez o piloto desmaiado, a situação só tendeu a se agravar com o giro aumentando de velocidade e a carga G crescendo.

Baseado em experiências bastante assustadoras dos meus tempos de piloto de caça, acredito que um outro fator, que não foi considerado, possa influir sobremaneira na capacidade de um piloto suportar uma aceleração brusca em uma entrada violenta em espiral.
Na verdade, um piloto centrifugado em espiral continuada, tende a ficar com o corpo mais para a vertical, quase que no mesmo plano do velame, que passa a girar no horizonte(desde que os pontos de ancoragem na selete sejam baixos, como é o normal). Sendo assim, a força centrífuga não estará atuando no exato sentido longitudinal do seu corpo, beneficiando, portanto, a capacidade do seu organismo de suportar melhor a carga G(a centrífuga atua, sim, de forma muito efetiva, em um para-quedista fazendo espiral, uma vez que a sua ancoragem é nos ombros - o G, no caso dele, atua exatamente no sentido cérebro-coração).

No meu entender, o problema no parapente, pode ser bem outro.
O normal de ocorrer nessa situação, quando o piloto já está na vertical girando forte, é a cabeça tender a ser jogada para trás, havendo que fazer força para evitar que isso ocorra.
E, dependendo do quanto a cabeça vá para trás, a carga G pode se tornar negativa no cérebro(convenciona-se chamar de G positivo aquele exercido do topo da cabeça para o coração e negativo, deste para a cabeça) ! Nessa situação, o tronco está suportando G em um sentido (digamos que do peito para as costas) e o cérebro em outra (do queixo para cima). Acho que isso desenvolvido dá uma tese de mestrado no Instituto de Fisiologia da USAF.

E aí sim, o apagamento pode ocorrer com muito menos G.

Mas há que considerar ainda uma outra possibilidade. Mais importante, no meu entender. Existem indivíduos que não reagem bem ao puxar G com a cabeça para trás, mesmo que o G seja positivo. Não sei qual é o motivo, nem nunca encontrei alguém que me desse uma explicação absolutamente convincente. O problema teria alguma coisa a ver com sensibilidade de labirinto, sei lá.
O que sei, por experiência própria, é que se fica lúcido, consciente mas completamente desorientado, sem coordenação psico-motora, com um mal-estar indescritível e se demora um bom tempo até o equilíbrio voltar.
Já imaginaram isso numa espiral? Ou num Caça à baixa altura?

Talvez aí esteja a explicação para esses apagamentos estranhos que eventualmente fazem um piloto entrar pelo chão a dentro voando.

Quem gosta de espiralar que se precavenha.

Obs.: Este artigo foi escrito colhendo subsídios no artigo "3600 mengagés: oui mais..." do número 48 da Revista Parapente Mag.