"E quase
certo que as idéias aqui expressas venham a gerar polêmica se
publicadas. Alguns poderão, até, trocar de mal com o autor.
Devo dizer, entretanto, que pesadas as vantagens e desvantagens,
foi resolvido, de caso pensado, assumir quaisquer imcompreensões
que pudessem advir. Especialmente dos amigos Caçadores de
P-47"
Eu começaria,
usando, mais uma vez, o meu amigo Tommy, lá de Niterói para
introduzir o assunto.
Em certa ocasião, servia eu em Natal e o Tommy em Brasília,
quando recebi um telefonema dele de Fortaleza:
- Estou aqui em Fortaleza e, infelizmente, tenho uma notícia muito triste para lhe dar. Acaba de cair um avião aqui.
Quem é aviador,
ou vive no meio, sabe o que se sente nessas horas. Por mais que
se atreva a rotina ao coração dos homens, a sensação é ruim.
É péssimo sentir aquele aperto no peito enquanto que a cabeça,
friamente, tenta encarar o trágico com naturalidade. Ao mesmo
tempo que, inconscientemente, se "torce" para que não
seja alguém muito íntimo.
E para mim, nesse caso específico, foi pior ainda. Eu acabara de
passar o comando da Sorbonne da Caça e ainda "vivia"
com o pessoal de Fortaleza, tendo lá deixado pessoas muito
queridas.
Mas, mantendo a pose, perguntei com angustiada naturalidade:
- O que houve?
E veio a resposta jamais imaginada, coisa típica do grande gozador que o Tommy é:
- O P-47 caiu do pedestal !
Para os leitores
menos afeitos, o P-47 foi o avião voado pelo Grupo de Caça na
Itália durante a II Guerra Mundial e, em Santa Cruz, até 1953.
Esteve, também, em Natal de 1954 a 1956 e viveu, efemeramente,
em Fortaleza uns poucos meses de 1957, quando foi desativado.
Em 1961, nós éramos estagiários no Curso de Caça, eu e o
Tommy, e ainda havia um deles remanescente no Esquadrão. Estava
completo e nós o olhávamos apenas com uma indiferente
curiosidade fácil de entender. Nós fazíamos o curso em um jato
de caça, o F-80, novidade para a época, e um avião à hélice,
mesmo um sobrevivente da Guerra, ainda não tinha o
"appeal" que possui hoje.
Foi nesse ano de 61 que se decidiu transformá-lo em monumento.
Aliviou-se o peso tirando o motor, trem-de-pouso, etc e a
carcaça foi colocada em um pedestal em frente ao prédio do
Comando na entrada da Base.
Não resta a menor dúvida. Ficou lindo! E mais, criou, para as
gerações subseqüentes, a impressão de que o P-47 havia sido
algo muito importante na história da Base de Fortaleza.
Só que não foi. Há que ser fiel aos fatos. O P-47, sequer,
formou uma turma de Pilotos de Caça em FZ. Ele foi desativado na
primeira metade do curso em 1957, tendo a instrução sido
concluída de T-6.
O P-47 em FZ é bonito. E não representa, no local, nada além
disso. Não é nem uma homenagem aos "guerreiros" da
Itália pois, até onde me lembro, ele estava pintado nas cores
do Esquadrão de Fortaleza.
Mas reflitamos um pouco. Será que é válido transformar um avião desativado em monumento?
Quando se o faz,
normalmente, o idealizador se considera triunfalmente um grande
empreendedor e não se dá conta de que o tempo, servidão
universal, mais cedo ou mais tarde, dependendo do zelo de seus
sucessores, se encarregará de transformar o monumento em pó.
Mas é compreensível essa falta de sensibilidade. Quando de faz
um avião-monumento, ele não é importante, nem raro e, muito
menos, valioso.
Quando se fez o monumento em Fortaleza existia P-47 abandonado em
tudo que é canto do Brasil.
Passado o tempo, é que se constata que ele ficou raro, muito
valioso e... podre a ponto de cair do pedestal.
Parece, todavia, que o reconhecimento de que o tempo acabará
destruindo o avião não é admitido nunca.
Em Belém, por
exemplo, existe um Catalina que vai-se acabar. Cedo ou tarde,
não tem volta.
O Museu já esgotou todos os argumentos para retirar o avião de
lá e trocá-lo por um Breguet XIV que está voando na França.
Isso, equivale, praticamente, a dizer que nós temos um Breguet
XIV, em condições de vôo, se estragando ao tempo. E é quase
certo que quem se opõe à troca sequer saiba o que é um Breguet
XIV. Mesmo do Catalina, o que a maioria sabe é que foi o avião
desbravador da Amazonia. A sua atuação como avião de Patrulha
na Guerra é quase que ignorada.
Pois do Breguet é bom saber que a primeira Unidade de Combate da
Aviação Militar Brasileira devidamente organizada foi sediada
em Santa Maria e equipada com aviões Breguet. Na década de 20.
Isto sem falar no papel destacado do avião na Primeira Guerra
Mundial e na implantação do Correio da Aeropostal Francesa na
África, que acabou chegando à Natal (leiam "A Linha"
recentemente lançado pelo INCAER).
A mesma
possibilidade de troca ocorre com esse P-47 de Fortaleza. Existe
quem, nos Estados Unidos, nos dê, por aquela carcaça velha e
corroída, um Ventura.
Ou seja, o nosso Museu poderia incorporar ao seu acervo o avião
no qual nós aprendemos a voar Patrulha! O avião que deixou um
passado na FAB e que não foi preservado para as futuras
gerações. Mas não, alguns companheiros que não dão muita
pelota para esses assuntos - porque se dessem, seriam os
primeiros a apoiar - não fazem outra coisa que não seja
criticar a intenção do museu de efetuar essas trocas.
Gente, vamos parar para pensar. Breguets, Venturas e outras máquinas do nosso passado estão acabando. Temos de aproveitar toda e qualquer oportunidade para enriquecer o acervo do nosso Museu. Mesmo que sacrificando alguns monumentos. A ação do tempo vai acabar com eles de qualquer modo. Nós temos poder hoje para redimir a ação dos nossos antecessores que não nos legaram esses aviões. Não deixemos a oportunidade passar. Ainda está em tempo.
Catalina e P-47 já existem no Museu e maravilhosamente conservados.
Vamos prestigiar
aqueles abnegados dos Afonsos. Eles fizeram o Museu quase sem
ajuda da gente. Não usemos a nossa influência, agora, para os
atrapalhar.
Para quem não sabe, na Inglaterra, todos os aviões-monumento
estão sendo substituídos por réplicas de fibra. É o bom-senso
prevalescendo.
Por falar em bom-senso, quanto tempo será que a ação química
vai levar para transformar aquele lindo B-17 de Recife em óxido
de alumínio? Não interessa saber se nós estaremos vivos para
ver. Um dia, o avião acaba, mesmo reconhecendo que ele é
mantido com esmero. Ainda mais com aquela maresia de lascar que
tem por lá.
E o B-17 que o Museu tem foi retirado do antigo Aeroclube de
Natal e está tão destruído que duas gerações serão pouco
para recuperá-lo.
Gostaria de
encerrar deixando uma sugestão para os renitentes. Poderíamos
criar um diploma legal que estabelecesse, como prática
obrigatória, se colocar no local onde haja existido um avião
monumento destruído pela ação do tempo, uma placa.
E, nessa placa, constariam os nomes de todos aqueles que, tendo
tido poder para salvar o avião da morte inglória, não o
fizeram. Começando pelo idealizador do monumento.
Assim, não podendo preservar o avião, perpetuaríamos os nomes dos que por, timidez ou teimosia, aceitaram o seu acabar progressivo.
Rio de Janeiro, 1989