(artigo sobre a morte de um Comandante do 1° Gp Av Ca)
- Alô, por
obséquio, é da residência do General Rodolpho Prates?
- Sim - e após uma breve hesitação - bem, não exatamente. Eu
sou a esposa do General. O que o senhor deseja?
Enquanto, mentalmente, colocávamos em ordem as indagações já preparadas de antemão e, até mesmo, recitadas intimamente, a ansiedade e a expectativa juntavam-se a aquele sem-jeito de quem tem consciência de poder estar sendo indiscreto, e o resultado final era estarmos realmente sem graça.
O assunto
começara alguns anos antes, lá pelos idos de 1970, quando
passamos quase um ano lendo e pesquisando tudo o que existia
sobre a história da Aviação Militar brasileira na década de
20.
Ocorre que um companheiro do Esquadrão de Hércules havia
encontrado, em um velho armário no antigo prédio do Correio
Aéreo Nacional no Galeão, um enorme acervo fotográfico de
tempos muito antigos. Eram revistas, recortes de jornal e,
principalmente, coleções e inúmeros álbuns de pilotos do
passado. Todos perfeitamente preservados, depois de permanecerem
naquele armário, pelo menos, por uns 25 anos.
E um desses álbuns despertou, particularmente, a nossa
atenção.
Caprichosamente
organizado, nele se viam fotos de Nieuports, Caudrons, Spads,
Avros, fotografias aéreas do Rio, grupos de aviadores e
surpreendentes paisagens de Gibraltar, Las Palmas e Porto Praia,
nas quais o tema, invariavelmente, era o hidroavião Jahu.
Em resumo, um verdadeiro achado arqueológico.
Passados os dias iniciais de euforia, o material acabou relegado
na sala-de-estar e nós, antes que tudo sumisse ou se
extraviasse, o levamos para casa.
Aquele álbum especial, que tanto nos impressionara, merecia uma
apreciação mais acurada. Não bastasse o nosso interesse pela
aviação antiga, ainda havia aquele soneto na abertura na
contracapa:
MEU ÁLBUM
Sobre
este álbum, que encerra
os eventos da minha mocidade,
minha alma se debruça comovida
nas horas doce-amargas da saudade.
(Arthur Cunha)
Quem teria sido
esse Arthur Cunha que, com tanta sensibilidade, havia resumido,
nessas poucas palavras tão bem relacionadas, sua trajetória
pelos caminhos tão difíceis e antagônicos de uma existência ?
No suceder das páginas, apareciam fotografias de companheiros
com dedicatórias as mais singulares - como são diferentes os
tempos e os costumes !
E essas dedicatórias, quando mais efusivas, faziam uma constante
referência à excepcional habilidade de pilotagem do agraciado e
à sua lealdade de amigo e companheiro.
Fixei-me, já com a intenção de encontrar algum deles, nos
nomes menos comuns: Idílio Aleixo, Armando Level, Lourival
Campello, Luiz Martins de Araujo e Rodolpho Prates.
Existiam ainda
fotos do hidroavião JAHU, nas quais apareciam, além do Arthur
Cunha, Newton Braga (Navegador), Ribeiro de Barros(piloto e dono
do avião) e Vasco Cinquini(Mecânico).
Essa identificação, entretanto, só seria feita tempos mais
tarde, quando descobrimos que Arthur Cunha fora piloto do JAHU na
sua viagem da Itália para o Brasil. Piloto, é bem verdade,
apenas da primeira fase, da Itália a Porto Praia no arquipélago
de Cabo Verde pois, na travessia do "grande lago", o
piloto fora um aviador da Força Pública do Estado de São
Paulo, o Tenente João Negrão, que substituíra o Cunha.
Com a disposição
de pesquisar mais à fundo a vida do aviador dono do álbum,
começamos a buscar a escassa bibliografia existente.
Logo de início, apuramos na História da Força Aérea
Brasileira, de Nelson Lavanere Wanderley, que Arthur Fernandes da
Cunha fizera parte, no Campo dos Afonsos em 1920, da segunda
turma de aviadores do Exército, terminando o curso como Cabo e
permanecendo como instrutor no ano seguinte, na graduação de
Sargento.
Em 1926, o Tenente Cunha, formado pela Escola de Veterinária do
Exército, partira como piloto, para a aventura do JAHU. No
entanto, não a completara. Por que ?
Algo de muito grave se passara entre a tripulação. O Brigadeiro
Newton Braga, no seu livro "Azas ao Vento", faz
referências veladas a um grave desentendimento, sem no entanto,
explicá-lo, limitando-se à transcrição de vagas acusações
feitas pela imprensa da época ao aviador.
Arthur Cunha fora então substituído por João Negrão que
colheu as glórias da missão, enquanto que ao Cunha restara a
difamação decorrente da defecção no seu momento mais
perigoso.
Fora buscando alguém que tivesse conhecido o Cunha que chegamos
ao General Rodolpho Prates. Seria ele o companheiro de turma,
Sargento em 1920, cuja foto, com expressiva dedicatória, existia
no álbum ?
Essa foto, aliás, havia provocado entusiásticos comentários no
Esquadrão, pois o piloto, em traje de vôo e tendo ao colo um
pequeno cão, posou ao lado do seu biplano Nieuport, irradiando
um ar de altivez e soberania dos ares comparável ao Barão
Vermelho.
Após uma breve
explicação do nosso propósito, a esposa do General nos
explicaria que ele fora realmente o Sargento Aviador de 1920.
- Mas, infelizmente, ele já morreu.
Durante o diálogo, soubemos que o General, ao morrer, trabalhava
em um livro sobre a sua participação nos primórdios da
Aviação Militar brasileira e que esse livro estaria em fase de
organização final, aos cuidados de um filho, Oficial do
Exército, mas nós nunca chegamos a nos aprofundar por esse
caminho.
Encontramos sim, mais tarde, na pessoa do Coronel Armando Level, uma fonte inesgotável de recordações e estórias sobre as fotos do álbum. Batemos grandes papos na varanda do Iate Clube aos quais acabou se juntando o Brigadeiro Melo(o Melo Maluco) que, embora não tivesse conhecido o Cunha, enriqueceu aquelas tardes com estórias extraordinárias.
Sobre a viagem do JAHU, todavia, eles pouco sabiam.
Mas Armando Level nos deu uma informação importante. A de que o Cunha, a partir da criação da Arma de Aviacão no Exército em 1927, foi se afastando do vôo militar, passando a fazê-lo, muito esporadicamente, mais no âmbito dos aeroclubes.

E que ele falecera em 1945, vitima de um enfarto quando tomando
um chope no Bar do Hotel Avenida na Avenida Rio Branco no Rio
(onde hoje está o Edifício Avenida Central).
Lourival Campello e Idílio Aleixo, também localizados, nada
trouxeram à luz. O primeiro, General Reformado, estava radicado
no Paraná e o segundo, Major Reformado, morava no bairro do
Cachambí no Rio, mas não se lembrava de praticamente nada.
Luiz Martins de Araujo, soubemos, radicara-se em Bebedouro, onde
viria a fundar do Aeroclube local.
O tempo passou e nós acabamos por entregar toda aquela
documentação ao Museu de Aeronáutica sem nunca chegarmos a
saber o que queríamos.
Aquele telefonema, no entanto, nos traria uma surpresa. A revelação que estava por se nos apresentar nos comoveria sobremaneira e nos deixaria de cabelo em pé, partícipes que fôramos de um acontecimento que privaria o vôo de caça de um de seus mais notáveis representantes no Brasil.
- No entanto, já que o senhor é Oficial da FAB, por certo deve ter conhecido o meu filho. Ele também foi aviador. Chamava-se Berthier.
Vieram-nos à
mente, então, outras lembranças, outras estórias. Como aquela
de quando o Berthier, nosso Comandante do 1° Grupo de Caça,
tendo entrado no 2° Esquadrão e não encontrando ninguém, ter
escrito no quadro negro "o Sol esteve aqui". Levamos um
bom tempo para entender a mensagem e identificar o seu autor.
Ou como aquela do pilofe de Gloster aprendido na Inglaterra com
um ás da 2ª Guerra. E a pose de artista na plataforma. As
camisas incrivelmente vincadas. E as estórias de P-40 ?
Todas essa
lembranças, reunidas, consolidavam uma imagem, cópia fiel,
daquele vibrante aviador que posara para a foto ao lado do seu
Nieuport em 1920 com o seu cachorrinho.
Foram muito parecidos, pai e filho!
Mas havia também uma outra recordação. Esta bem mais triste.
Era um final de
tarde de agosto, em 1963, já com o expediente terminado em Santa
Cruz, e a Esquadrilha de Espadas decolara para fazer um ataque
simulado à pista de São José dos Campos. Com todo mundo de
má-vontade, pois estava sendo realizada uma partida de futebol
de salão decisiva no nosso torneio interno.
Já havíamos passado para o topo e estávamos subindo em Linha
de Frente, após a concentração exigida para subir IFR com a
esquadrilha formada, completamente esquecidos, daquele F-8 que
decolara para um vôo de experiência um pouco antes da gente,
pilotado pelo Berthier, e que, certamente, estaria à nossa
espreita mal-intencionado.
Foi quando
sofremos aquele ataque fulminante do "fantasma" que,
mergulhando do sol com vantagem de altura e posição, nos
aniquilara. Ninguém vira, ninguém percebera. Teríamos sido
inapelavelmente abatidos. E nós sabíamos quem ele era.
Após o ataque inicial, o "inimigo" se reposicionou lá
por cima no poleiro e ficou a nos observar. Foi quando decidimos:
se ele vier de novo nós vamos revidar. Mesmo sabendo que
estaríamos incorrendo em um erro doutrinário, pois essa não
era a nossa missão.
Mas o F-8 também não estava lá muito certo. Afinal, vôo de
experiência, mesmo que pilotado pelo Comandante do Grupo, não
era para atacar esquadrilha liderada por Tenente.
Ele veio de novo e, desta vez, reagimos. Satisfeitos da vida por
termos uma desculpa para não prosseguirmos na chatice da missão
que seria o ataque a São José. O combate seria muito mais
divertido e nós pousaríamos logo, ainda a tempo de ver o final
do jogo. O combustível era a conta certa e bastava um rápido
engajamento para não ter mais como prosseguir na missão.
E tínhamos o álibi perfeito.
Iniciamos um tremendo "pela coruja" enroscando entre as camadas de nuvens. Lembro que o 2 de Espadas, quando reverteu a nosso comando, simplesmente estolou e caiu de costas dentro das nuvens. Mas quando voltou, por sorte, o fez com uma tremenda vantagem de posição frente ao inimigo. Começamos a ganhar a partir daí. O pega estava sensacional, mas eram três contra um e, pouco a pouco, nós fomos dominando a situação até terminarmos os três atrás do atacante.
Foi quando ele,
definitivamente encaudado, viu surgir à frente aquele Cumulus.
Não houve hesitação e ele entrou para fugir.
Nós, ao mesmo tempo, fizemos um "break" de 180 graus e
fugimos de motor a pleno. Era o encerramento honroso do combate.
Cada um para o seu lado.
Foi já no final
da partida que o Oficial de Operações apareceu para informar
que o King 01 ainda não havia pousado e que sua autonomia já se
havia esgotado.
Ele não voltaria. O combate que se iniciara a uns 10 mil pés,
acabara baixo, com a fuga para a nuvem, justamente sobre o
litoral de Mangaratiba onde o terreno é elevado.
No calor da refrega, o combate, que se havia iniciado sobre o
Ribeirão das Lajes, evoluíra para o plano vertical, quase que
de chão para chão, já sobre a praia.
Nós não entramos na nuvem, não porque tivéssemos consciência
de que lá dentro havia um caroço. Não o fizemos porque não
haveria sentido. Simplesmente desengajamos em posição
vantajosa, com o "inimigo" encaudado e demos no pé
como vencedores.
Para a vitória ser completa havia que fugir e não se deixar
mais surpreender até o pouso.
Foi nesse dia que, a despeito de todas as tabelas astronômicas, o Sol deixou de brilhar mais cedo em Santa Cruz.