(artigo sobre a utilização do F-80 Shooting Star na FAB)
O F-80 foi um avião que marcou uma época na história da aviação e em especial, na Força Aérea Brasileira. Por certo, todos sabemos que ele não foi nenhuma maravilha - tinha muitos defeitos e umas poucas virtudes - mas, ainda assim, deixou cheios de orgulho aqueles que tiveram a oportunidade de voá-lo.
Em
1957, no Esquadrão de Fortaleza, a Instrução de Caça seguia
com muita dificuldade fazendo uso do velho F-47(Thunderbolt), o
"tijolo quente", quando começaram a chegar os jatos.
Até hoje, a estória é meio nebulosa. Fala-se que ocorriam
acidentes diários por estar o avião já "cansado".
Diz-se também que não era nada disso. Que a questão seria
deficiência no fluxo de suprimento, que o avião ainda estava
novo e outras fofocas mais. Consta até que o suprimento
encontrado nos Parques de Material depois da desativação teria
dado para manter o avião em vôo por alguns anos ainda.
Uma coisa, no entanto, é certa: a onda para desativá-lo e pela
introdução de equipamento mais moderno, a jato, existia e deve
ter sido bem significativa.
De qualquer modo, ainda que essas especulações tenham sido
verdadeiras, elas não tiveram nenhuma influência, porquanto
para que os quatro primeiros T-33 chegassem naquele mesmo ano, as
providencias haviam que ter sido tomadas muito antes.
Alguns meses depois, começaram a chegar os F-80.
É difícil falar só em F-80 ignorando o T-33. E também, sem entrar em considerações sobre o Curso de Caça.
Há quem diga que o Piloto de Caça da FAB é passível de classificação em três categorias. Os de F-47, os de F-80 e os de T-33/ Xavante.
Os de F-47 seriam
sido arrojados e destemidos - como o foram também os antigos
Pilotos de Ataque e Reconhecimento do A-20.
O avião era monoplace e não havia vôo-duplo de instrução.
Muito estudo, muita hora de nacele e pronto...lá se ia o
caçador-ginete conduzindo sua portentosa máquina. Ao menor
estalo do chicote, o Pratt Whitney R-2800 respondia de imediato
com 2000HP de potência (o mesmo motor do Ventura, do B-26, do
C-82, etc).
O aprendizado do vôo de caça era na base da tentativa e erro.
Dependendo da gravidade do erro, e dele ter sido observado pelo
líder, o resultado era o desligamento. Era um curso impiedoso e
seletivo. Talvez uma autodefesa do Instrutor. Nenhum Piloto de
Caça aceita voar ao lado de alguém a quem não confie sua vida.
Na guerra já basta o inimigo.
Mas deve ter ocorrido, muitas vezes, o inverso. Erros
gravíssimos não eram observados e o piloto prosseguia no curso
sem que suas deficiências fossem avaliadas.
Daí alguns gozadores das novas gerações afirmarem que o
Caçador formado no "tijolo" era arrojado, destemido e,
muitas vezes, descoordenado como ele só.
Dizia-se até que, se em uma esquadrilha de jatos, o líder
estivesse lá na frente e os três alas atrasados, a
probabilidade era o líder ser dos antigos, formado no F-47. No
caso contrário, se a Esquadrilha estivesse em forma, só com o
quatro atrasado, então este é que seria o oriundo do
"tijolo".
Brincadeiras à parte - e são brincadeiras carinhosas - a
verdade é que o piloto formado no F-47 tinha de aprender
sozinho. Não havia o Instrutor a bordo para lhe soprar macetes
no ouvido. Daí a incorporação de vícios - se o avião era
tosco e bruto, havia que ser mais e dominá-lo.
Esse o perfil do Caçador das antigas.
Convém, no entanto, esclarecer que pilotos desse grupo existiram
que se celebrizaram e marcaram época pela precisão e finesse
de pilotagem. Não os conheci a todos, mas lembro bem dos dois
Ary, o Bezerra e o Granja, que eram notáveis.
Naturalmente terão existido muitos outros com os quais não tive
oportunidade de voar. Principalmente entre os veteranos da
Itália que tiveram de mostrar habilidade e destreza em
situação real de combate. Diferente de nós que o fizemos de
forma cômoda, em tempo de paz e treinando.
O segundo grupo de
Caçadores é o dos que fizeram o curso de F-80. Aqui já vamos
encontrar uma pequena evolução. A existência do T-33 permitia
a instrução duplo-comando na fase pré-solo e no vôo IFR sob
capota. Com isso, o estagiário tinha oportunidade de assimilar
alguma experiência diretamente do Instrutor em vôo. Era pouco,
mas já era alguma coisa.
Talvez por inércia, todavia, se manteve a filosofia antiga e
não havia instrução de duplo-comando no correr do curso.
Depois de solar o F-80 o estagiário ainda entrava direto nas
diversas fases, exatamente como no F-47.
O perfil do Caçador de F-80 ? Um pouco menos arrojado e
destemido, mas ainda cheio de vícios e metido a fino de
pilotagem. Não por causa do avião, mas talvez por uma reação
dialética de tanto ouvir falar na grossura do "tijolo
quente".

O terceiro grupo
é o daqueles formados após a desativação do F-80, quando
passaram a ser usados apenas os TF-33 e, depois, o Xavante(o
TF-33 era um eufemismo brasileiro - ele era o mesmo T-33 - o F
era para definí-lo como treinador de Caça).
Essa fase adquiriu suas características após uma breve
transição.
A forte influência de uma nova mentalidade de segurança de vôo
introduzida a partir de 1966/67 e o adensamento do tráfego
aéreo criaram o cenário para que o Curso de Caça se voltasse,
progressivamente, agora que o avião permitia, para o vôo
duplo-comando com o Instrutor.
E o resultado, passado o tempo, é o novo Caçador. Muito
profissional, adestrado pelo Instrutor que lhe terá transmitido
toda a sua experiência, sem vícios, padronizado, grosso e
agressivo nas horas certas e normalmente fino de pilotagem.
Falemos dos
aviões, começando pelo T-33. Ele foi um projeto desenvolvido a
partir do F-80 no pós-guerra. Sua missão básica era
treinamento. A fuselagem do F-80 foi alongada e o tanque
significativamente reduzido(de 216 gl para 95 gl) permitindo a
criação da nacele traseira.
Por ser um avião de treinamento, não tinha blindagem e, em
princípio, não era armado, existindo, apenas, a previsão para
duas metralhadoras no nariz.
Os aviões da década de 40 eram bastante rudimentares e
semelhantes ao F-80, enquanto que os fabricados nos anos 50, eram
bem mais refinados e melhor equipados de sistemas de navegação.
Isto porque, mesmo depois da desativação do F-80 na USAF, o
T-33 foi, durante anos, o seu treinador de jato.
A nacele do T-33 diferia substancialmente da do F-80, não só
pela preocupacão com uma melhor disposição dos instrumentos,
como também pelo conforto que propiciava ao piloto.
Curiosamente, a FAB recebeu em 1957 os mais modernos e anos mais
tarde, os mais antigos, quando a USAF os desativou em favor do
T-38.
Inicialmente, mesmo com metralhadoras, os T-33 não foram usados
para a Instrução de Caça propriamente dita. Somente para
instrução pré-solo e para Vôo por Instrumentos.
Nos anos 60, chegaram os "novos" T-33, agora
denominados TF-33, inicialmente para substituir o Gloster em
Santa Cruz e Canoas e depois, com a parada do F-80, para uso na
Instrução de Caça em Fortaleza.
Esses "novos" aviões, embora muito bem revitalizados e
muito bem equipados com VOR/ILS e Transponder, eram, na verdade
mais antigos que os primeiros. Alguns chegaram até a serem
denominados TF-80 antes de assumirem a sigla T-33 na USAF.
O TF-33 assumiu definitivamente a Instrução de Caça a partir
de 1968. Em 1966, ante a baixa disponibilidade de F-80, as
esquadrilhas de instrução passaram a ser mistas com os
líderes(Ás e 3) de T-33 e os alas estagiários(2 e 4) de F-80.
Em 1967 já existiam mais TF-33 do que F-80 e estes, com a
desativação já programada, não andavam lá muito bem das
pernas. Por questões de segurança, os F-80 então passaram a
ser voados apenas pelos Instrutores.
E a medida que iam vencendo as inspeções IRAN, eles foram
virando panela. Era uma tristeza passar pela Rua Dom Manuel e ver
os velhos guerreiros, fuselagens de pé, nos saudando em um
depósito de ferro-velho aguardando a fundição.
E o F-80 ? Era um
avião horroroso para quem tinha voado Gloster e possuía o TF-33
ao lado. O F-80, realmente, só passou a ser um avião atraente
quando em fim de vida. Enquanto existiram muitos e havia opção,
a preferência era sempre pelo T-33 e ninguém fazia questão de
voá-lo. Quando ele começou a rarear, não. Aí foi uma corrida
danada e todo mundo queria. Especialmente os mais novos que,
antevendo o fim próximo, queriam preencher a marca de ter voado
o único monoplace que ainda existia na FAB, porquanto o Gloster
já estava parado, o Mirage ainda por vir e F-5, ainda era sonho.
O F-80 era ruim de desempenho se comparado com o T-33. Era muito
mais pesado em razão da blindagem e talvez também, pelas
técnicas de fabricação de sua época. Sustentava menos curva e
subia menos. Em resumo, perdia feio em combate com o T-33.
É verdade que ganhava longe em poder de fogo. Eram seis
metralhadoras .50 com 300 cartuchos cada. Era tanta munição que
a decolagem, totalmente municiado, exigia um esforço enorme para
levantar a bequilha. E é claro que esse peso todo, afastando o
CG do centro de sustentação, não melhorava em nada o
desempenho de curva.
Mas o avião era uma plataforma de tiro bem estável. As seis
metralhadoras atirando juntas quase chegavam perto do potencial
que o "tijolo quente" levava com suas oito.
Entretanto, todo esse armamento de cano não possuía uma boa
contrapartida na hora de levar bombas. Eram apenas dois
"pontos duros" em cada asa com capacidade de 1000 lb
cada(ou seria 500?). De qualquer modo, pouco.
Mas onde o F-80 era ruim mesmo era do lado de dentro. A nacele
era um desastre.
O assento era fixo, de forma que o piloto ajustava sua altura com
o uso de banquinhos de madeira de diversos tamanhos. Os baixinhos
usavam o maior, os compridos o menor e o banco era colocado sob o
bote.
Mas havia os super-longos. Mestre Trompowsky, por exemplo. Quem
tinha coxa muito longa - havia um limite previsto - perderia o
joelho na ejeção. Pelo menos a rótula, que ficaria no pára-brisa.
A estes era vedado o uso do pára-quedas de encosto. Tinham de
usar o velho "switlick" de assento(será que a grafia
era essa ?) e sentar diretamente sobre ele no assento, sem bote e
sem banquinho. Era o mesmo pára-quedas que a gente usava no T-6.
Naturalmente, nesse caso, se perdia o automatismo da ejeção.
Que já não era grande coisa. E sendo alto, é claro, que ao
usar o pára-quedas de assento, mais alto ficava o piloto. A
cabeça, se não era pressionada contra o canopy, devia, pelo
menos, encostar. Com a palavra o Tromps e o Petersen.
Quanto à ejeção, o F-80, mais antigo, era bem mais complicado
que o T-33.
Nesse, ao se levantar o braço direito do assento, se ejetava a
capota. O esquerdo travava o suspensório (ou vice-versa, não
lembro). Com os dois braços levantados, o gatilho da ejeção
ficava então livre para ser acionado no punho do braço direito.
Era só pressioná-lo e pronto. A seqüência de ejeção abriria
o pára-quedas automaticamente. Com alguns óbices a serem
vencidos, principalmente à baixa altura, onde havia uma
inquietante estatística da USAF sobre o envolvimento
assento/pára-quedas.
No F-80 era tudo pior. Havia, primeiro, que ejetar a capota por
um punho em T na lateral direita do painel. Depois, levantar os
braços do assento e aí, então, comandar o gatilho. A quebra de
seqüência poderia resultar em uma temerária ejeção através
da capota. Foi o que fez o Normando Medeiros próximo de Aquiraz
quando, já pousado em pane na praia, viu o avião incendiar-se
sem conseguir ejetar a capota.
Mas o ar-condicionado e a pressurização eram também dignos de
nota negativa. A pressurização só funcionava quente e o
comando de temperatura era mecânico, através de uma haste que
congelava e não se movia mais de jeito nenhum à grande
altitude. Na melhor das hipóteses, entortava. Aliás, retornando
ao assunto do curso e desempenho do avião, há que mencionar que
existia uma missão no curso, a 5F2c, que era realizada a 40 mil
pés. Altitude a que alguns aviões e alguns estagiários se
recusavam a atingir.
Enquanto o T-33 com sua leveza chegava tranqüilo a 40 mil pés,
o F-80, se chegava, o fazia caindo pelas tabelas. Muito
estagiário foi eliminado do curso nessa missão. Havia que
tratar o avião com uma delicadeza muito especial. Qualquer
grossura e pronto; vinha o pré-estol, o atraso, o afundamento e
o ala jamais reagrupava. Só no cafezinho.
Mas o interessante mesmo a 40 mil pés era a linha-de-frente,
fazendo trilha de condensação. Era preciso ser um gato para
fazer aquelas malditas curvas de antigamente. O motor reagia
lento e parecia que a gente estava correndo em cima de sabão. A
aceleração do motor era lenta, ou melhor dizendo, retardada -
ele demorava a reagir mas quando atendia, o avião saia que nem
uma bala. E não parava de avançar mais quando a gente queria,
mesmo com o motor reduzido. Era um suplício.
E havia líderes que eventualmente se empolgavam com o desempenho
da esquadrilha(coisa rara) e chegavam a puxar breaks(manobra
violenta para se desviar de um ataque). Era o caos. Havia
esquadrilha que só reunia na Seção de Equipamento de Vôo.
Mas o mais emocionante era a descida de 40 mil pés com o
desembaciador sem funcionar(o que era absolutamente normal no
F-80). Chegava-se no tráfego sem se enxergar nada. E isso depois
de descer fazendo acrobacia na ala que nessa missão tinha de ser
feita com absoluta proficiência.
A 5F2c era a missão mais difícil do curso, pois qualquer erro
envolvia risco para os outros aviões e para isso não havia
perdão. E tudo com o enorme visor K-14 permanentemente instalado
e bloqueando 50% da visão frontal do piloto !
Mas há que falar ainda da iluminação interna do F-80. Mas
talvez seja melhor abrir um parêntesis e explicar a origem do
avião para que se entenda melhor o porquê de tanto problema.
Durante a II
Guerra, a Alemanha, em 1942, já havia testado o Caça a jato
He-280 e havia tornado operacional, em 1944, o ME-262. A
Inglaterra também já havia colocado o Gloster MK-4 em serviço
em 1945.
Os EEUU, que já haviam produzido um modelo experimental não
muito bem sucedido, o Bell P-59, partiram com tudo para cima do
P-80 da Lockheed. Seu projetista? O lendário Clarence
"Kelly" Johnson que já projetara o Hudson e o
Lightning e que consolidaria futuramente o seu gênio com o
Constelation e os fenomenais F-104 e SR-71 Blackbird.
O P-80 e o F-80 eram quase idênticos e traziam consigo todos os
improvisos impostos pela servidão do tempo(enquanto a Força
Aérea Americana era do Exército, os aviões de caça usavam a
sigla P de pursuit; depois, com a criação da USAF em 1946, a
sigla passou a F de fighter).
O avião teria, com certeza, dominado os céus da Europa se
tivesse ficado pronto a tempo.
Mas não ficou e foi aperfeiçoado no que era possível e
colocado em serviço no após-guerra. Logo depois surgiria a
Guerra da Coreia. Mas aí "o buraco já era mais
embaixo". O enflexamento de asa introduzido pelo Professor
Busseman na Alemanha já era de domínio geral e o Mig-15 e o
Sabre F-86 já eram senhores dos ares. Ao F-80 coube a missão
menor de ataque ao solo. Coube-lhe, no entanto, o mérito da
primeira vitória da guerra contra um antiquado IL-15
norte-coreano.
Retornemos agora
à iluminação interna. Simplificando, os instrumentos ainda
eram fabricados com material fosforescente e as luzes eram
daquele tipo ultravioleta antigo presas nas laterais da nacele e
voltadas para o painel. E não funcionavam bem. Era terrível. No
meu primeiro noturno eu não enxergava nada. Optei então por
focalizar a luz da esquerda no velocímetro. Assim, pelo menos eu
nem estolava na final, nem varava a pista no pouso. Some-se a
isso uma pista de 1800m, o pára-brisa embaçado e um visor
bloqueando a visibilidade e se tem uma dimensão do pepino a ser
descascado.
Lembro de um episódio pitoresco. Existia naquela época no Rio
uma Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos. Um Oficial
americano da Comissão, que havia voado F-80 no passado, não sei
como, obtivera autorização para fazer um vôo no Esquadrão.
Provavelmente para nos inspecionar, uma vez que os aviões eram
cedidos pelo PAM(Programa de Assistência Militar).
Ele apareceu para voar no mesmo dia em que eu fiz o meu primeiro
noturno. A instrução estava atrasada, a disponibilidade não
estava boa e mandaram deixar o cara voar. Está na cara que a
receptividade não foi boa e resolveram sacaneá-lo.
Escalaram ele para voar noturno. Era uma noite sem lua, um breu
danado. Recordo de ouví-lo comentar no vestiário que não voava
o avião há muito tempo. Não lembro quanto, mas era tempo
demais. Negócio de mais de cinco anos.
Justiça se faça, o Maj Powell (acho que era esse o seu nome)
não perdeu a classe, nem pediu arrêgo. Pegou o avião escalado,
decolou e voou o tempo da missão. Depois, nunca mais voltou.
Pelo menos enquanto eu era estagiário.
Uma coisa que marcou o F-80(e também o T-33) foi o uso de JP-4.
Era um combustível complicado com ponto de fulgor muito baixo e
extremamente sensível a acumular eletricidade estática. Pegava
fogo com uma facilidade incrível, tanto que nunca foi aprovado
para uso comercial. Mesmo sendo muito mais eficiente que o JP-1
comum de aviação.
Uma das grandes preocupações era o fogo em vôo. No ano
anterior ao meu curso havia ocorrido um acidente sério por causa
disso. A área do flape de mergulho sob a fuselagem central era
por onde passavam as tubulações de combustível e, portanto, o
ponto onde se concentravam as atenções da inspeção pre-vôo e
onde residia o perigo.
Ocorreu que um avião teve fogo em vôo exatamente na área do
flape de mergulho. O piloto, contrariando todos os procedimentos
previstos, resolveu não se ejetar(havia um tabu com relação à
ejeção no início, especialmente no F-80) e correu o risco de
trazer o avião para o pouso. No final da corrida ele já não
tinha mais controle nenhum do avião que acabou lambendo todo,
mal lhe dando tempo de escapar.
Passemos à
operação fora de sede. Já se voava, na minha época(1961), o
Viscount da VASP, existindo, portanto, JP-1 em diversos locais do
país. Mas eram poucos os lugares e havia conseqüências por
usá-lo em lugar do JP-4.
Tanto o F-80, quanto o T-33, possuíam Tanques de Ponta de Asa,
dois tanques internos em cada asa e o tanque de fuselagem que
alimentava o motor e para onde era transferido o combustível dos
demais. O uso continuado de JP-1 dava algum tipo de problema no
sistema das bóias e válvulas que resultava em eventuais panes
de não-transferência. O que era uma grande roubada quando
acontecia com um único TPA(eram 230 gl - quase uma tonelada na
ponta da asa). A recomendação nesse caso era alijar o tanque ,
mas sempre havia a vaidade querendo preservar o equipamento e
havia quem tentasse. A despeito de alguns pousos aterradores,
não há registro de que alguém se haja acidentado por isso.
O problema de assimetria de peso era tão complicado que existia
um sistema chamado Auto Drop que permanecia ligado durante a
decolagem. Se por algum motivo um TPA caísse, o outro,
automaticamente seria alijado. Houve muita gente que esqueceu o
Auto Drop ligado e, tendo de alijar um tanque, voltou sem os
dois.
Mas acho que me enrolei. O Auto Drop só existia no T-33. No F-80
decolava-se com o interruptor de bombas ligado e selecionado para
Tip(se não era isso, era algo parecido - não existe mais um
único manual de F-80 para consulta). Em caso de emergência, era
só apertar o botão e os dois tanques iam embora. Para alijar um
ou outro havia um comando manual no chão ao lado esquerdo do
assento.
Aliás, esse sistema elétrico de alijamento dos tanques no F-80
tem uma explicação. Os primeiros modelos do F-80 tinham usado,
até a Guerra da Coréia, tanques de ponta de asa bem menores(com
somente 160gl) e pendurados na extremidade da asa, por baixo, em
dois "pontos duros", que originalmente se destinavam a
levar bombas. Quando o novo tanque TPA foi introduzido (este sim,
efetivamante, na ponta da asa e bem maior, com 230 gl) adaptou-se
esse circuito elétrico para o alijamento deles.
Cabe mencionar que esse interruptor tinha duas posições. Uma
normal para as bombas e essa Tip para os tanques. Obviamente,
muita gente nas missões de treinamento de bombardeio, volta e
meia ligava o interruptor para a posição errada e pimba,
alijava os dois tanques sobre o alvo, em vez das bombas.
Tivemos até dois pilotos que "competiram" entre si
durante toda a carreira para ver quem alijava mais tanques.
Ganhou um gaúcho de Canoas com um lifetime-record de 8
TPAs.
Mas que fim
levaram os F-80 ? Todos viraram panela ?
Creio que tivemos 33 aviões. O número mais alto que recordo é
o do 4232.
O 4200 foi mantido voando durante muito tempo ainda. Era o avião
do Comandante do Esquadrão, tendo sido preservado porque no seu
histórico constava que ele havia voado na Coréia. Foi pintado
todo de branco e se destacava pelo capricho com que era mantido,
só voando em ocasiões especiais.
Depois de recolhido ao Parque, o 4200 se acidentou em rota quando
voava de Recife para o Campo dos Afonsos para ser entregue ao
Museu. Caiu no interior da Bahia, supondo-se que seu piloto tenha
tido alguma complicação de saúde que o inabilitou.
Perdemos um companheiro e um avião precioso. Hoje o Museu possui
um F-80 incompleto no qual falta muita coisa original.
Bem, falta falar
um pouco do motor do F-80 / T-33. Era o Allison J-33. Robusto e
frágil ao mesmo tempo. Robusto por ser oriundo de uma época em
que a metalurgia ainda não havia encontrado a solução para as
altas temperaturas internas do motor e super-dimensionava tudo
que podia. Frágil porque existiam partes críticas que quebravam
com muita freqüência. As paletas da turbina, por exemplo.
O J-33 tinha um sistema de combustível ainda bastante elementar,
mas já capaz de absorver as acelerações rápidas sem que
houvesse superaquecimento na JPT(Jet Pipe Temperature), o que
fazia com que ele levasse 14 seg para acelerar da marcha lenta a
100%. Havia portanto, ter de ter muito cuidado na aproximação
para não se ficar curto e precisar de potência muito
rapidamente.
Existiam dois Controladores de Combustível. O Principal e o de
Emergência. O de Emergência servia de back-up para o Principal
e não se tinha nenhum dos dispositivos normais de proteção de
superaquecimento, sendo, portanto, muito mais delicado de
operar(o Gloster tinha um sistema desse tipo - qualquer
motorzada, queimava a turbina). No F-80, existia um sistema
automático que transferia o controle de combustível do
Principal para o de Emergência quando a pressão caía abaixo de
um determinado valor. Esse automatismo foi desativado e não
existia no T-33.
Do sistema elétrico, pode-se afirmar que era a grande
preocupação do piloto. Quase tudo era elétrico. Desde a
transferência de combustível dos tanques de asa para o tanque
de fuselagem(exceto o TPA cuja transferência era por
ar-comprimido) ao flape de pouso, passando até, no caso do T-33,
pelo ajuste vertical do assento.
Mas o grande problema era o flape. Sem ele o avião era um
foguete para pousar e nós tivemos acidentes muito graves, mesmo
depois da pista já ter sido aumentada para 2600m, quando
estagiários tiveram pane elétrica total por falha de gerador.
Na maioria dos casos, o gerador entrava em pane e o piloto
continuava voando sem perceber. Durante vinte minutos, tudo
continuava bem, alimentado pela bateria. Quando esta
descarregava, advinha a pane elétrica total. Ficava-se sem
rádio, sem indicação de qualquer coisa(inclusive da quantidade
de combustível), sem transferência de combustível(reduzindo,
portanto a autonomia drasticamente, pois só restava o
combustível do tanque de fuselagem - 216 gl no F-80 e uns poucos
95 gl no T-33) e sem o flape. Era uma situação muito grave que
exigia pouso imediato.
O piloto inexperiente, sem ouvir as instruções do líder,
acabava entrando em pânico e aproximando para pouso sem levar em
consideração a ausência do flape. O resultado, em algumas
ocasiões, por mais endoutrinados que os mais novos estivessem,
foi catastrófico.
Mas já que falamos de pouso vamos encerrar essa rememoração
falando sobre a manobra.
O F-80 tinha o
nariz muito pesado(especialmente quando municiado) e a qualquer
bobeada se entrava de bequilha. Nesse caso, segundo o Manual do
Piloto, a única solução era colocar o manche em neutro,
acelerar o motor a 100% e ter fé. Qualquer tentativa de conserto
resultava invariavelmente na quebra do avião na terceira
bequilhada. Era o que a TO americana chamava de porpoising.
O T-33 não tinha esse problema por ser melhor balanceado(não
tinha as seis metralhadoras no nariz) e pousava bem mais
tranqüilo.
Bem, é isso. As idéias foram sendo colocadas no papel sem muita preocupação de ordem. O mais difícil foi falar do avião tendo de limitar as infindáveis estórias que foram vividas por seus pilotos no Brasil.
De qualquer modo,
deu para ter uma noção e fica algum registro para o futuro do
que foi voar de F-80.
Como já dissemos, o F-80 fez história como o primeiro jato de
combate da USAF e cada um de nós que o voou no Brasil, mesmo
quando ele já era obsoleto, sente um enorme orgulho de haver
participado um pouquinho dessa história.
Afinal, pouca gente teve o privilégio de voar um avião projetado pelo mago Kelly Johnson. Nós, honrados, fizemos parte desse time.
(Paulo J. Pinto, março de 1997)