Acho que nos
fizemos amigos desde o primeiro dia de conhecimento. Julio Dário
Correia de Azevedo, o Azevedinho, chegou à EPCAR em Barbacena,
como pára-quedista, entrando direto na minha turma, no 2°
ano, em 1956. Era irmão de outro Azevedo, o Aluísio, que fora
nosso veterano em 1955 e não seguiu na carreira.
Era um guri - assim nós passamos a tratá-lo desde o início -
fora de série. Inteligente, atrevido, gozador, crítico ferino e
irreverente de tudo, era um dos mais queridos companheiros da
turma. A despeito de fazer-se extremamente chato e desagradável
quando queria incomodar alguém.
Nasceu em Araxá e, no Campo dos Afonsos, nós tivemos de agüentar,
quase que diariamente, aquela chatice de ouví-lo, durante a
revista do recolher, anunciar que já havia recebido o último
número do Correio de Araxá e que os interessados deveriam
aguardar a vez para o ler.
Aliás, o Azevedo não parava nunca de falar em Araxá e na RIFA
- segundo ele, a REAL E INDISPENSÁVEL FORÇA AÉREA ARAXAENSE -
que em verdade contava com um respeitável time de primeiríssima
linha. O Wanderley Montandon, Instrutor de Caça falecido em
Fortaleza, o Wander Montandon, irmão mais novo, também
Caçador, o Marco Antonio Oliveira, notório desentortador de
radiais da Proteção ao Vôo, o Comendador Ronaldo Borges, Zé
Juca lá nas Minas de Araxá, e até, segundo nos parece, o
Brigadeiro Pompeu Perez que era membro honorário por ser das
proximidades(Caconde, em SP, se não me engano). Por sinal, já
soubemos que desponta na Academia o mais novo membro da RIFA - o
Cadete Montandon - que, certamente seguindo a tradição da
família, há de ser Piloto de Caça.
Mas voltando ao
Azevedo. Como Aspirantes, seguimos juntos para o Curso de Caça
no 1/4° GAV em Fortaleza e alí, ele realmente encontrou o seu
ambiente.
Era um excelente piloto e tirou o curso de letra. Inteligente e
estudioso, se deu ao luxo de cometer algumas heresias dentro do
sistema.
Como aquela quando o Wellington Carvalho criou as estrelas no
macacão de vôo para cada 100 horas de Caça e inventou o
bastão para quem completasse 500. O guri, ao completar 50 horas
durante o curso, criou também o seu bastão. Uma vassoura, sem
piaçava, que ele levava para a pista quando ia voar e deixava
com o mecânico do avião. Teve Instrutor querendo arrancar o
couro dele!
De Fortaleza, fomos ser Pif-Pafs no Esquadrão Rompe Mato em
Santa Cruz. Ele na Esquadrilha de Ouros e eu em Espadas.
No Ceará, havíamos sido ferrenhos adversários, ele em
Copas(com Antonio Henrique, Meira, Ajax, Starling, Belchior e
Marcondes) e eu em Espadas(Baltar, depois Barrinhos, Russo,
Tabalipa, Aldir, Glaser, Fleury e o nosso querido médico, Paulo
Fernandes). Diga-se, a bem da verdade, que ferrenhos, só de
nossa parte. Eles nem estavam aí para a gente e eram tão
melhores que levaram o "caneco" brincando. O Azevedo
só perdeu a artilharia do Catrapo para mim, por haver o Aldir me
cedido a cobrança de um penalti contra Ouros que foi batido
irreverentemente de letra contra o bolivianno Sueldo e que gerou
alguma confusão, ou melhor seria dizer, bastante confusão,
contra o time do Onça.
Mas no Rompe Mato
em Santa Cruz seria diferente. A Taça Eficiência era disputada
no âmbito do Grupo de Caça, entre as esquadrilhas dos dois
esquadrões. E no Segundão, a integração era tal que o Catrapo
era realmente um divertimento e não aquela guerra do sangue e
areia de Fortaleza. As coisas só engrossavam quando o jogo era
contra o "outro lado do hangar", os Jambocks do 1°
Esquadrão.
Aliás, neste ano de 1962, nós chegamos a ter um time de futebol
de salão memorável no Pif-Paf. Camelier, Bezerra, Macuco, Paulo
e Azevedo permaneceram invictos durante um bom tempo. Até
cruzarmos com os monstros do Esquadrão Pampa de Canoas na
formatura do Curso em Fortaleza, quando fomos inapelavelmente
batidos por Guima, Petersen e Pintão e a zaga de 2 m de altura,
Binzinho, Aldir e Malafaia. Perdemos de 6 a 3. Mas isso é
glória dos Pampas e não quero encher demais a bola deles.
Reconheço-lhes, apenas, os méritos.

Em Santa Cruz o
Azevedinho consolidou a sua habilidade de vôo e seu carisma. Sob
a orientação do grande Comandante de Ouros, Carlos Mendonça da
Rocha, que faleceria em acidente no fins de 62, até que ele não
criou muito caso. Pelo menos, até a chegada do Berthier.
O guri era solteiro. Morava na Catedral - uma paródia da Capela
dos pilotos gaúchos - com o Cúrcio e o Fleury e, esmerado no
trajar, era metido a lançar moda.
No inverno de 63, ele deixou o bigode crescer até parecer um
daqueles que se usavam no século passado e hoje são tão
comuns. Mas que, naqueles tempos, causavam impacto.
Principalmente quando ele ia para o expediente no trem da Base
usando uma boina de pele estilo Gengis Khan. O Berthier, com quem
o Azevedo muito se parecia, invocou com o bigode logo de saída.
Acho que não só pelo bigode , mas também pelo capuz. O
"Belo" não gostava de concorrência.
Eu me recordo que o guri recebeu ordem de aparar o bigode mas
não o fez. E aí começou a guerra.
Um dia, ao entrar no rancho para o café da manhã, o Berthier e
o Ruy Moreira Lima estavam na mesa do Comando. Quando vi o
Berthier cutucar o Ruy, senti logo que vinha bronca. Só que
ninguém esperava o troco.
O Berthier pediu ao Azevedo a carteira de identidade, obviamente,
para mostrar ao Ruy o desacordo entre a foto e o bigode. E ele,
com aquele seu jeito meio cínico e angelical, tirou duas
identidades do bolso e perguntou, na maior cara de pau, qual a
que o Berthier queria ver. A com bigode, ou a sem bigode?
Ele era assim. Havia-se dado ao trabalho de tirar outra
identidade só para ter a chance de algum dia, dar uma sacaneada
no Berthier.
O Azevedinho teve vida curta.
No dia 31 de julho
de 1963, logo após o almoço, ele me levou de T-6 ao Santos
Dumont. Eu ia registrar o meu filho que havia nascido no HCAER no
dia 26 e de quem ele seria padrinho.
Lembro que na hora de fazer o registro, ainda tive uma última
dúvida. Pretendia que ele se chamasse Júlio em homenagem à
minha mãe, mas mudei de idéia pois ele ia ficar muito
convencido.
Logo que cheguei em casa, recebi a ligação de Santa Cruz. O T-6
se acidentara na Restinga da Marambaia, provavelmente na hora
exata em que eu registrava o Paulo Dário.
O Azevedo fora vítima de uma das mais fatais armadilhas da nossa
época. Uma variação do estol assimétrico do Xavante, que não
era absolutamente compreendido então, e que ocorria,
principalmente com pilotos acostumados ao T-6D, quando voando o
pesadão T-6G.
Até hoje, toda vez que vou ao Hospital Central e me sento no
jardim, fico imaginando a confusão que não deve ter sido o
rasante que ele tirou ali após me deixar no Santos Dumont quando
chegamos de viagem. Ao chegar no Hospital para conhecer o Dário,
levei a maior bronca. Minha esposa pensava que tinha sido eu.
E ele morreu sem nem saber que eu havia registrado meu filho com o segundo nome dele. E que, na verdade, é como nós o chamamos hoje, Dário.
Pois é, já se vão mais de 30 anos. Como o tempo passa!
Guri, olhe pelo teu afilhado.