O Milagre de São Jerônimo

O Torneio da Aviação de Caça, tal como o temos hoje, teve suas sementes lançadas em um 22 de Abril, Dia da Aviação de Caça, quando o dia ainda não era.

Foi em 1966 e eu era Instrutor em Fortaleza formando "no peito e na raça, Piloto de Caça em T-33 e F-80 glorioso" conforme está no nosso Cancioneiro. Esse foi um ano decisivo para a sobrevivência do sistema. Simplesmente, ou o 1/4° GAV era prestigiado recebendo os Instrutores necessários ou tudo desmoronava.
Acabou que fomos onze para lá. Todos de boa vontade. Seis de Canoas e cinco de Santa Cruz. Juntamo-nos aos cinco que lá já estavam e viemos a constituir os chamados "Instrutores de 66".
Às vezes me pergunto o que teria sido da Caça sem esse grupo. Mas se mérito houve, justiça se faça, ele não foi nosso. Foi de quem nos liderou então.

Mas era 66 e fomos para Santa Cruz para a solenidade do 22 de Abril(esse foi o dia em que o 1° Grupo de Aviação de Caça realizou o maior número de missões nos céus da Itália durante a II Guerra Mundial e é uma data reverenciada pelos pilotos da FAB). Na chegada, tomamos conhecimento de que haveria uma competição de Tiro e Bombardeio entre as Unidades. Foi o TAC 66. Incipiente e muito improvisado. Mas foi assim que começou.

Em 1967 não houve nada e em 1968 houve o primeiro torneio efetivamente organizado sob o patrocínio do 1/14° GAv de Canoas.
O gaúchal caprichou como soe acontecer por aqueles pagos. Foi um primor de organização. Só por isso eles já mereciam ganhar. Treinados nos macetes do estande de São Jerônimo com aqueles ventos doidos, levaram tudo.
Com o passar dos anos a competição, mais ou menos inspirada no Gunsmoke da USAF, foi-se aperfeiçoando e voltou-se essencialmente para o desempenho operacional.
Nada de missão no estande com tráfego retangular e condições conhecidas.
Cada esquadrilha passou a receber, duas horas antes da decolagem, uma Ordem Fragmentária com um objetivo a ser atacado. Nesse tempo, havendo que se fazer todo o planejamento da missão, respeitando-se o quadro tático existente e com o sobrevôo obrigatório de pontos de controle determinados pela direção da prova. Esse planejamento é então entregue à direção.
A missão é voada com um quinto avião "juiz" acompanhando a esquadrilha, não podendo o vôo subir acima de 150m de altura, a velocidade ser variada em mais de 10% e a proa em mais de 45° da rota planejada. Qualquer desrespeito a esses parâmetros resulta em penalização na pontuação final.
Ao chegar ao objetivo, que ninguém, em princípio, conhece, é efetuado o ataque. Contam pontos, obviamente, a precisão do armamento no alvo e a diferença de tempo entre o HSO(Hora Sobre o Objetivo) real e o planejado.
Na prática, considera-se HSO a hora em que o armamento do líder atinge o solo. Um erro superior a 30 segundos no HSO representa zero pontos em um total de 300 possíveis.
O impacto de cada avião no alvo valendo 250 pontos, permite a uma esquadrilha perfeita fazer um máximo de 1300 pontos (1000 do armamento e 300 da navegação). Mas para isso é preciso que os quatro aviões acertem o alvo, não haja nem um segundo de erro na navegação e não tenha havido penalidades no trajeto até o alvo. E alguns já fizeram.
Em uma ocasião eu liderei uma esquadrilha de Fortaleza que fez 1298 pontos e quando contava ter vencido, o Souza e Melo de Canoas me ganhou com 1299 !
Toda essa rigidez visa criar condições as mais parecidas com a realidade bélica. Mas cria também situações bem inusitadas. E é fácil de entender.
Os aviões vêm navegando rasante e somente no ponto de puxada do "balsing"(manobra em que se ganha altura rapidamente para avistar e poder atacar o alvo) é que se pode subir acima de 500 pés(150m). Há que, em poucos segundos, avistar e identificar o alvo, se posicionar e fazer o ataque e não permanecer em trajetória previsível por mais de 10 segundos(que é tempo mais do que suficiente para um radar de anti-aérea resolver o problema do tiro e abater o atacante - na verdade, 5 segundos já são suficientes - na competição há uma colher de chá de mais 5).
Já é possível imaginar o que ocorre vez por outra. O "balsing" é puxado, busca-se o alvo onde ele deveria aparecer e...nada !
Ele pode não aparecer porque simplesmente houve erro de navegação e ele está em outro lugar ou porque, mesmo com tudo certo, ele é difícil de visualizar. Assim é na pampa gaúcha.
Já entraram para o folclore da Caça as estórias de São Jerônimo.
Em certa ocasião, abateram até um cavalo! Acusações de parte à parte, acabaram imputando a culpa à turma do Mirage. "A solidariedade sendo muito grande na ALADA" (conforme outra peça do Cancioneiro), fez com que aflorasse de imediato uma enérgica reação dos Jaguares (código rádio dos Mirage) que exigiram se fizesse uma autópsia no eqüino para verificar o calibre da arma assassina (o Mirage é o único avião da FAB a usar canhão de 30mm, pelo menos até o AMX aparecer). Com isso ele conseguiram manter a dignidade, mas há quem diga que o GSB de Anápolis pagou o cavalo.
Houve um outro episódio com os Mirage que deu origem até a uma gravura que está no Histórico do Esquadrão de Fortaleza.
Parece que o líder, ao puxar o "balsing", identificou como alvo uma construção branca que em verdade era uma manjedoura de gado. A esquadrilha mandou bala. O alvo, cem metros ao lado, incólume.
Segundo se diz, o Barrica (controlador do estande) fantasiou um pouco a ocorrência na reunião à noite em volta da cerveja e a versão que ficou é de que o tiro foi na Torre do "barrica" e que o gaúcho guarda-campo não queria mais ouvir falar "naqueles aviãozinho prateado" (os Mirage nessa época ainda não eram camuflados).

Mas acho que o mais insólito dos acontecimentos passados em Torneio de Aviação de Caça foi aquele do "Milagre de São Jerônimo" ou "O dia em que o som não se propagou".
Era a última etapa do Torneio e o 1/14° GAV (me desculpem os Pampas se só conto estória de Canoas, mas há que ser fiel aos fatos) e o 3/10° GAV de Santa Maria disputavam palmo a palmo o título geral da competição. A prova final era de Tiro Terrestre e o cômputo feito pelo tradicional sistema acústico que registra a passagem do projetil no alvo.
Sai a primeira esquadrilha. Do 1/14°. Resultado normal. Saem os outros. No fim do dia, chegam os resultados. Todas as esquadrilhas fizeram zero. Só o 14 acertou!
Nem os Xavantes que, de .50, atiram mais de perto. Quatro de Fortaleza, quatro de Natal e quatro de Santa Maria. Todos zero. Bronca generalizada. Só não lembro se os F-5 de Santa Cruz zeraram também.
A Direção da prova homologou os resultados e o 14 levou o troféu.

As Unidades de Xavante, entretanto, inconformadas, fizeram um repto. Uma nova prova, extra-TAC, disputando o Troféu Tira-Teima com uma rigorosa vistoria no sistema de cômputo de acertos, antes.
No dia seguinte, todos os aviões acertaram o alvo e nós levamos o Tira-Teima para Fortaleza com o melhor resultado.

Quanto ao fenômeno da véspera, por mais que a física tentasse explicá-lo, acabou conhecido mesmo como o Milagre de São Jerônimo.