Tiro Aéreo

A ÚLTIMA MISSÃO

A utilização da aeronave de caça contra um alvo aéreo representa para o piloto, em tempo de paz, a culminância de um longo aprendizado. Normalmente em uma Unidade de instrução é o coroamento de um programa onde muito suor e muito fosfato foram consumidos.
Nas Unidades operacionais, representa a auto-afirmação do Piloto de Caça. É a hora de demonstrar ao escalão superior a capacidade da Unidade. É o momento da verdade. Afinal, historicamente, esse é o objetivo do Caçador. Destruir o oponente no ar.
Em países mais bem dotados de recursos, esse treinamento é realizado contra pequenos aviões-alvo de pilotagem remota e até, eventualmente, contra aviões obsoletos já em desuso.
Em certa ocasião, visitando na USAF a Base de Eglin no litoral do Golfo do México, tivemos oportunidade de visitar uma Unidade equipada com velhos F-100 Super Sabre adaptados para pilotagem remota. A USAF treina lançamento de mísseis ar-ar contra esses aviões.
Como os mísseis lançados não levam carga explosiva, o avião-alvo normalmente não é abatido. Sensores de rastreamento permitem ao controle da missão saber, em tempo real, se o míssil passou suficientemente perto do alvo para ser letal caso estivesse ativado.
É claro que às vezes há um impacto direto e nesse caso, perde-se o F-100. Mas isso ocorre muito raramente. No entanto, quando estivemos em Eglin, nos foi contado o caso de um entristecido Coronel que dias antes havia abatido com um impacto direto, o exato F-100 que ele muito havia voado e que ostentara o seu nome na fuselagem quando de tenente.

No nosso caso, as coisas são mais modestas. Com os aviões de maior performance, é usado um alvo-acústico que transmite para uma estação de terra quantos projéteis passaram suficientemente perto para serem considerados acertos. É o sistema usado no Mirage e eventualmente no F-5.
Ainda assim, mesmo sendo esse alvo de dimensões bem reduzidas, vez por outra há um impacto direto e se perde o artefato.
Quando se utiliza armamento de menor calibre - metralhadora .50 - e o tiro tem de ser realizado a menor alcance como no Xavante, o treinamento é feito contra uma biruta de nylon rebocada.
É um alvo difícil de acertar. Mede mais ou menos 10m de comprimento por 2 de largura. Isso no chão, porque em vôo, a velocidade o torna mais estreito e mais comprido.
O treinamento é feito com os quatro aviões da esquadrilha fazendo um circuito contínuo em volta do alvo, tendo cada um algumas oportunidades de atirar.
O avião rebocador pode também ser um avião de caça, sendo que no passado a FAB teve um Esquadrão, o 1/10° GAv, especializado nessa atividade. Voava-se o B-25 que nos dava a vantagem de levar uma grande quantidade de alvos a bordo que eram alijados sobre a pista após cada missão, sendo logo em seguida desfraldado outro para a seguinte. A grande autonomia do B-25 permitia se fazer até quatro missões de esquadrilhas diferentes antes de ser necessário pousar.
A contagem de acertos de cada piloto é feita em função da cor de cada furo na biruta, pois a ponta da munição é pintada de cor diferente para cada avião. Normalmente cada missão é feita com 100 tiros.
Interessante é que esse sistema de pintar a munição para cômputo de acertos individuais está comentado no livro "A Verdadeira História sobre a Aeronáutica Brasileira" editado em 1944 e de autoria do jornalista José Garcia de Souza, no qual é feita referência a um dos pioneiros da Aviação Militar Brasileira, o Cel Antonio Alves Cabral:

"Vivendo com a atenção sempre voltada para a concretização de seu ideal isto é, para a Aviação, ocorreu-lhe pintar com cores peculiares a cada piloto a ponta das ogivas dos projéteis destinados ao exercício de tiro aéreo sobre biruta rebocada, de forma a se poder usar simultaneamente o mesmo alvo para treinamento de vários aviões, determinando facilmente a sua performance individual. Tendo assistido na Escola de Aviação a aplicação desse engenhoso artifício, o piloto americano John Carr o levou para os Estados Unidos onde mais tarde ele foi mostrado ao próprio Cel Alves como sendo uma grande novidade. O nosso eminente patrício fez então saber aos colegas americanos que a idéia pertencia há muito ao Brasil, calando modestamente o seu nome, num gesto de patriotismo que nos encheu de orgulho e satisfação".

É claro que esse treinamento contra a biruta, de per si, já envolve um potencial de risco - o alvo está apenas a 300m do reboque. Os atacantes não podem, portanto, atirar com ângulo inferior a 15° e o tiro tem de ser feito também com um ângulo de picada de pelo menos 5°. Isso garante a segurança do reboque que vê a trajetória das traçantes passando ao largo e abaixo de sua linha de vôo.
Mas às vezes, dá zebra. Em tempos idos, dois incidentes ficaram famosos.

Em um deles, um F-80 colidiu com a biruta e a barra de ferro onde ela fica amarrada ficou enganchada no bordo-de-ataque da asa. O cabo não arrebentou logo e o F-80 saiu de nariz para cima carregando a biruta que ainda estava presa ao B-25 rebocador. O cabo esticado foi levado para cima pelo F-80 de encontro ao leme de profundidade do B-25, cabrando-o todo e levando o velho bombardeio a uma posição quase vertical até o cabo partir. Ocorreu então um tenebroso estol de badalo.
O F-80 pilotado pelo Carvalho "Capelão", ao que se sabe, pousou sem maiores problemas.

Em outra ocasião, lá em Canoas, um Gloster também agrediu a biruta. Esse caso terminou com maiores estragos pois as linhas de hidráulica passavam pelo bordo-de-ataque da asa direita e foram rompidas, tendo o Gloster pousado de trem recolhido (o motor direito acionava a bomba hidráulica e o esquerdo, o compressor de ar para o freio - coisa de inglês).

Houve também um caso menos grave em que um tiro de Mirage ricocheteou no peso da barra de ferro e foi atingir o reboque (que era outro Mirage) sem maiores conseqüências.

Mas de Xavante, nada. Pelo menos até no ano em que eu andei por Natal.
Ao contrário do F-80 - superdimensionado estruturalmente - e do Gloster, o Xavante é um avião de outra geração.
Não que seja frágil. Nós é que o usamos de uma forma diferente daquela para a qual ele foi concebido. Eu nunca duvidei que em um entrevero entre ele e o ferro da biruta, ele saíria perdendo.
E assim ocorreu com o Alfredo Moura que após bater no alvo, teve de se ejetar (será que é sina de família? O Alfredo é irmão do Hugo que também já teve de "tirar o time de campo" uma vez na represa de Três Marias).
Tivemos no mesmo ano do Alfredo(1985), o caso do reboque que levou um tiro no tanque de ponta de asa. Provavelmente um tiro com pouco ângulo e sem atentar para os 5° picados pois não foi possível comprovar qualquer ricochete. Tão logo ocorreu esse impacto, o reboque alijou a biruta e tomou o rumo de casa (o tiro é feito na área "Tubarão Contente" a umas 30 milhas do litoral).
Aliás, eu liderava essa esquadrilha e quando recuperava do segundo passe, tive a impressão de ver na visão periférica, uma nebulosidade próximo do reboque. Quando nivelei no poleiro afrouxando um pouco o G é que vi realmente o rastro de combustível que saía dele.
Pensei que talvez a válvula de alijamento houvesse sido comandada e avisei pelo rádio.
O "novinho" Schmidt que era o piloto retrucou: "Chefe, acho que levei um tiro". Dizem que ele que fala pouco, vai ter assunto para os próximos 10 anos.

Essa deveria ter sido a minha última missão de tiro aéreo. O número dois ficou com pena de mim e acertando o reboque resolveu transformá-la em penúltima.
De qualquer modo, está chegando mesmo a hora de parar. Principalmente depois de ter perdido a coca-cola na missão anterior - é uma praxe na Caça a aposta em qualquer missão em que haja competição - normalmente, o primeiro elemento contra o segundo.
É verdade que às vezes, principalmente no final do curso quando os estagiários já estão botando banca, o desafio seja Instrutores contra Estagiários e esse era o caso da missão em que tentaram abater o reboque.
Mas na missão em que eu perdi, não. Era uma aposta especial. Eu, Instrutor contra um estagiário em particular. E perdi. Acertei 11 e ele 21.
Um resultado muito bom para ele que fazia sua segunda missão e regular para o Instrutor velha águia.

No tiro aéreo contra biruta, qualquer resultado de Xavante acima de 20% pode ser considerado excelente - as metralhadoras são na asa e o tiro tem de ser feito na exata distância de convergência. O melhor que já vi foi 47% do Ferraz em Fortaleza embora o Cortes tenha feito 18 em 20 em missão de um só passe. O Cima também, segundo me lembro.

No velho F-80 era mais fácil. O armamento ficava no nariz e a dispersão era bem menor. O Ivan Frota em 61, e o Bellon em 70, foram os grandes recordistas com 70%.
Em 68, uma vez em Santa Cruz, cheguei a fazer 63 mas levei zero na missão por haver um rasgo de 30cm na cor da minha munição no finalzinho da biruta - indício de tiro com ângulo inferior a 15° - embora eu não o tenha feito.
Hoje se reconhece que a parte traseira da biruta fica panejando em vôo, não sendo mais confiável essa interpretação.
Mas naquele ano, representou um zero para mim em uma missão na qual me bastaria fazer 12% para ganhar a Taça Eficiência do 1° Gp Av Ca. Por ironia, perdi por causa de um acerto e não de um erro.

Mas voltando à aposta nenhum Piloto de Caça gosta de perder. Mas nessa ocasiào, eu até que não me incomodei muito. Fiquei, sim, até emocionado.
Afinal, não há Instrutor que, mesmo perdendo, não sinta satisfação ao ver um aluno seu se sair bem.
E em especial quando o aluno é o filho da gente.
Em último caso, posso até aderir à versão dos colegas dele que andaram espalhando que o meu avião devia estar com uma metralhadora com munição da minha cor e a outra, na dele. Assim ele teria concorrido não só com os 100 tiros dele, mas também com 50 dos meus.

Acho que agora já posso parar. Ficarei menos triste.

A última missão não está longe.