Pane Seca

GATOS PARDOS E GRILOS LOBISOMENS

Devia ser perto de meia-noite e eu estava ferrado no sono.
Foi quando alguém me acordou, dizendo que o Oficial de Dia queria falar comigo.
Já me levantei com a consciência pesada e aquele sentimento de culpa que sempre acompanha a gente na juventude. Afinal, sempre se fez alguma coisa de errado.
Qual dos meus últimos pecados disciplinares teria sido descoberto agora? E por que me acordavam a essa hora? Não conseguia lembrar de nenhuma besteira tão grave que justificasse esse rigor.
Mas não tinha nada a ver. O Oficial de Dia era o meu Instrutor do Curso de Caça que, empolgado, me propunha, ainda naquela madrugada, fazer o meu cheque IFR (Instrument Flight Rules) em um vôo de T-33, de Fortaleza a Recife.

O T-33 era a versão biplace do F-80 Shooting Star no qual fazíamos o curso. Enquanto que este era um avião bem antigo, projetado ainda na II Guerra Mundial, cheio de soluções de engenharia improvisadas, desconfortável e de pilotagem bastante exigente, o T-33 havia sido desenvolvido tempos depois se beneficiando da tecnologia mais atual do após-guerra.
Era um avião agradável de voar, mais moderno, bem iluminado à noite e excelentemente equipado para vôo IFR. No entanto, embora nós o tenhamos improvisado como avião de combate anos mais tarde em substituição ao F-80, não podia ser levado muito a sério nesse rol. Ele era pobremente armado apenas com duas metralhadoras(o F-80 possuía seis), não possuia blindagem e sua autonomia de vôo era bem menor por ter menos capacidade de combustível. Isso tudo, o fazia mais leve e de pilotagem mais dócil. O F-80, ao contrário, pesadão, era uma jaca voadora. Na época em que fiz o curso, o T-33 era usado apenas na fase pré-solo e para instrução IFR. Todo o resto do curso era voado de F-80.

Mas voltando à nossa estória, o fato é que a manutenção acabara de terminar a inspeção do avião e o meu Instrutor estava ansioso para que um aluno seu fosse o primeiro estagiário do curso a terminá-lo. Como ele teria de fazer o vôo de experiência de qualquer modo, a sua idéia era aproveitar a ocasião. E é claro, surpreender todo mundo no início do expediente do dia seguinte com o anúncio da novidade.
Conquanto a maioria dos companheiros de curso ainda não houvesse terminado a parte de vôo tático, o cheque era a única coisa que me faltava e eu estaria dispensado logo a seguir, pois já estava de casamento marcado para alguns dias depois no Rio. Emendando férias e a dispensa, eu só teria de me apresentar no 1° Grupo de Caça, minha nova Unidade em Santa Cruz, dali a 45 dias.
A despeito do improviso, do despreparo e, sobretudo, dos inconvenientes do cansaço, principalmente dele, Instrutor, não havia como furar e lá fui eu sonolento preparar a navegação. A idéia era um bate e volta, parando em Recife só para reabastecer.
Decolamos, devia ser uma da matina. Eu, na nacele traseira teria de fazer tudo sozinho, menos o taxi, o gerenciamento dos sistemas básicos do avião e o pouso. O resto, decolagem, navegação e papo rádio, era comigo. Até a reta final do procedimento IFR em Recife. E vice-versa.
Menos mal que o vôo era noturno e não seria obrigatório o uso da maldita capota de VI(vôo por instrumentos). Só alguns Instrutores especialmente exigentes não a dispensavam à noite.
Decolei pelos instrumentos, mesmo porque, lá de trás, de pouco adiantaria olhar para fora. Nessa época, ainda se exigia a decolagem sob capota, a decolagem dita cega, e o piloto tinha de demonstrar proficiência na sua execução para obter o cartão IFR. Hoje, essa prática não existe mais, porquanto a experiência demonstrou que, por pior que seja a visibilidade, sempre haverá o suficiente para que a visão periférica do piloto o ajude a se manter no centro da pista durante a corrida, mesmo com toda a orientação e todo o controle sendo feito pelos instrumentos. Sob uma capota, esse controle milimétrico se tornava extremamente difícil, fazendo com que o avião eventualmente se aproximasse perigosamente das laterais da pista. Por isso, todo mundo torcia para fazer instrução de VI à noite onde a capota não era exigida. Indiretamente, já nos beneficiávamos da visão periférica para manter a reta de decolagem enquanto no solo.
Após decolar, iniciei a subida em L na direção do mar, pois as aerovias de jato ainda não existiam, estávamos em 1961, e todo vôo acima de 13 mil pés(3900m), mesmo seguindo o eixo da aerovia inferior, era não-controlado. Havia que subir fazendo 45° com a aerovia(até a metade do nível de cruzeiro mais 1000 pés e, então, curvar 90° para interceptá-la já nivelado. Assim se subia sem controle, mas com a segurança de não interferir com o vôo do pessoal de hélice que voava lá por baixo.
Pois foi no início da curva que começaram os problemas desse vôo. Estávamos passando 11 mil pés(3300m), subindo para o nosso nível de cruzeiro que era 20 mil(6000m) quando o motor começou a falhar e logo parou.
Enquanto os tubarões batiam palma lá embaixo, a Torre de Controle, ao ser informada da emergência, burocraticamente nos instruiu para acusar na vertical como se nós pudéssemos bater asa para chegar lá.
Decidimos que aos cinco mil pés(1500m) nos ejetaríamos se não resolvêssemos o problema. Felizmente, aos sete mil, o motor pegou. Durante o procedimento de partida no ar, ao serem ligados todos os interruptores de transferência de combustível, nos surpreendemos ao constatar que o tanque de fuselagem estava tão vazio que o ponteiro havia passado do E(de Empty - vazio) e estava quase sobre o F(de full - cheio). Quando o combustível começou a entrar no tanque e o ponteiro a se mexer, é que identificamos o porquê da parada. Pane seca. O Instrutor lá na frente não havia ligado a transferência de combustível dos TPA (tanques de ponta de asa) e o tanque de fuselagem, que alimentava o motor, simplesmente secou(ele era bem menor no T-33 do que no F-80, pois a nacele traseira roubara um bom espaço da fuselagem - só dava para uns 10 minutos de vôo em regime de subida).
Acho que nunca tive uma satisfação tão grande em aviação como aquela ao constatar que o motor havia acendido e começava a acelerar para marcha-lenta.
Corrigida a besteira e refeitos do susto, prosseguimos na subida e continuamos a nossa missão pousando em Recife uma hora depois.
Abastecemos, tomamos um balde de café cada um e decolamos de volta por volta das 3 da manhã. Até hoje não sei direito o que aconteceu nessa decolagem. Só lembro que antes de sair do chão o avião bateu em alguma coisa e ao recolher o trem, a luz vermelha ficou acesa indicando que ele não estava perfeitamente travado em cima(nessa ocasião, a pista menor de Recife, a 15, hoje 16, estava em reparos e tudo indica que batemos em alguma coisa dessa obra na interseção das duas pistas).
Foi assim que iniciei a descida em Fortaleza. Com a luz do trem acesa, indicação de que agora ele poderia não estar travado em baixo(embora as luzes individuais de cada perna estivessem verdes). Nós declaramos em emergência e prosseguimos para a vertical do radio-farol.
Havia uma camada de stratus cobrindo a pista abaixo do nosso nível, mas o lado da cidade estava aberto.
Pouco depois de iniciar a descida no afastamento do procedimento IFR, mais uma surpresa! O Instrutor lá na nacele dianteira, alarmado, me apontou umas luzes que apareceram lá na frente. Elas estavam em rota de colisão com a gente e ele imediatamente assumiu o comando desviando à direita para cima da cidade. A Torre de Controle indagada, informou que desconhecia qualquer outro tráfego aéreo sobre Fortaleza naquele momento.
Em cima da cidade, já por baixo da camada e em condições de fazer o pouso visual, tentamos entrar na final e novamente as luzes apareceram ameaçadoramente à nossa frente. Arremetemos.
Tentamos por diversas vezes e sempre acontecia o mesmo. A situação já estava preocupando, pois o combustível já estava na pior, quando, finalmente, conseguimos pousar fazendo uma aproximação bem baixa e fechada comigo olhando para trás para ver se elas nos seguiam. Quando vimos os bombeiros nos acompanhando, é que nos lembramos que estávamos em emergência de trem-de-pouso!

No dia seguinte, éramos a atração do Esquadrão. Eu havia concluído o curso, sim. Mas entramos para o folclore da Unidade. Todo mundo queria ouvir a nossa estória. Como havíamos voado em condições de extremo cansaço, inadmissíveis nos dias de hoje, passamos a ser tratados com aquela condescendência reservada ao pessoal de miolo mole.
Tínhamos tido um flame-out(parada de motor), arrebentado o trem de pouso em uma colisão com um objeto desconhecido na decolagem de Recife e enfrentado uma Esquadrilha de Discos Voadores nos céus de Fortaleza. A gozação foi geral e tudo atribuído à nossa imaginação.
Não sei se pegou algo para o meu Instrutor, nem soube no que foi que nós batemos na decolagem(sempre me ficou a suspeita de que fôra em alguma coisa deixada pelos operários na lateral da pista). Viajei logo em seguida para o Rio e esqueci o assunto.

Só fui me lembrar dos Discos Voadores(nos quais nunca cheguei a acreditar muito) quatro anos mais tarde quando, já Instrutor na mesma Fortaleza, voava uma missão noturna de T-33 com um estagiário.
Estávamos na perna do vento a 1500 pés quando, subitamente, apareceram as mesmas luzes na minha frente. A noite era clara, não havia qualquer nebulosidade e ninguém estava grilado, nem cansado.
Foi aí que, pesquisando, me dei conta que os discos voadores nada mais eram que as luzes de uma cidade praiana, Pecém ou Paracuru, não lembro qual, que fica no litoral ao norte de Fortaleza.
Ocorre que exatamente a 1500 pés na perna do vento, e também no afastamento da descida IFR que nós tínhamos iniciado naquele estranho vôo, a pequena serra que existe ao norte de Fortaleza fica no limite de bloquear a visão das luzes da cidade praiana.
Se a gente subia um pouquinho, elas apareciam. Se baixava , elas sumiam.
Foi um consolo saber que as luzes de fato existiam. Nós é que já estávamos tão adrenados e tão esgotados que não tivemos discernimento para interpretá-las corretamente naquele vôo de trapalhadas.

Continuo até hoje sem acreditar em disco voador. Principalmente à noite.

Porque à noite, todos os gatos são pardos.

E, especialmente em Aviação, todos os grilos são lobisomem.