(análise dos pára-quedas reserva usados no vôo de parapente)
Nos últimos
tempos, os fabricantes de pára-quedas de vôo-livre, obviamente
na busca de diminuir as elevadas razões de descida que,
reconhecidamente, são uma servidão a ser vencida, têm-se
dedicado a desenvolver tamanhos cada vez maiores.
Assim é que passamos dos velames de 25-26m² de 5 anos atrás,
para a moda atual dos enormes reservas de 35-40m².
É indiscutível
que um velame maior, bem projetado e sustentando uma mesma carga
que um menor de mesmo tecido, irá se beneficiar de uma descida
mais suave.
Mas existem compromissos que podem, no todo, não serem tão
vantajosos ao se utilizar um velame maior.
O mais importante
deles, e que muita gente ignora, é que para um reserva descer
devagar, não basta ser grande. É preciso que o seu projeto seja
bom. Pára-quedas trabalha otimizando arrasto e, eventualmente,
jogando com pequenas resultantes de sustentação para descer
mais lentamente. É um assunto muito complicado para ser produto
de tentativa e erro. Um bom pára-quedas, invariavelmente, é
produto, sim, de um sólido embasamento teórico.
Isso pode ser facilmente comprovado testes levados a efeito pela
Associação Italiana em fins de 96 e que publicamos abaixo, nos
quais dois dos menores reservas testados (APCO PP 16 e
Metamorfosi P16, ambos com 22,1m²) apresentam razão de descida
melhor do que outros com áreas de até 38m² !
É importante que o universo do vôo-livre tenha consciência de
que a expansão do mercado inexoravelmente irá atrair todo tipo
de aventureiro "inventor" em busca do lucro fácil.
Existem no Brasil, reservas de asa fabricados em "fundo de
quintal" que são absolutamente assustadores.
Para se comparar diferentes reservas, não se tendo o resultado
de um teste prático que dispense qualquer outro parâmetro de
comparação, existem outros fatores a serem considerados além
do tamanho:
Diâmetro
Projetado
No projeto
de um pára-quedas, não se fala de área, mas sim de diâmetro
projetado. Isso porque a resistência aerodinâmica (arrasto) é
diretamente proporcional à área projetada (é a seção
frontal, A, da fórmula do arrasto).
Por sua vez, pára-quedas com mesmo diâmetro podem usar
quantidades diferentes de tecido em função do projeto, ou seja,
têm área diferente. Um reserva PDA (Pulled Down Apex - ápice
rebaixado) por exemplo, com o mesmo diâmetro de um cônico, tem
área menor mas desce mais lentamente.
Tipo de
Tecido
Muitos
pára-quedas do mercado usam tecidos de baixa ou média
porosidade enquanto que outros o fazem com tecidos "zero
porosidade". Isso explica, por exemplo, porque um
Metamorfosi de 22m² tem uma razão de descida semelhante ou
melhor do que um muito maior que use tecido poroso. Um
pára-quedas que use tecido "zero porosidade", no
entanto, é um projeto complicado de estabilizar porquanto, mais
sujeito a oscilações. Assim, só utiliza esse tecido quem
realmente sabe o que está fazendo.
Tipo de
Projeto (desenho)
Os comumente
aceitos hoje são o PDA, semi-esférico, cônico e camada-dupla.
O PDA tem o melhor coeficiente de arrasto se comparado com outros
de mesmo diâmetro. Nesse tipo, a melhor razão de descida
depende do quanto se rebaixe o ápice. Mas há que se encontrar o
ponto de equilíbrio entre a razão de descida e a estabilidade.
Baixando-se demais o ápice, surgem oscilações. O dupla-camada
com PDA é uma solução para se manter a estabilidade
rebaixando-se mais o ápice. As janelas, entretanto, cobram um
tributo e aumentam a razão de descida, daí ser necessário um
aumento do diâmetro. Os cônicos são muito estáveis mas são
muito volumosos por exigirem uso de muito mais tecido e diâmetro
maior para se obter resultado semelhante a um PDA. As janelas nos
cônicos, por sua vez, criam vetores de sustentação que se
somam ao arrasto diminuindo a descida. Mas são grandes,
volumosos e demoram a abrir.
Por essas e outras é que sugerimos que não se parta para uma verdade absoluta simplesmente porque um pára-quedas é grande. Ele pode ser um grande muito mal projetado e descer muito mais rápido que um menor bem projetado.
Testes da Associação Italiana
Foram testados 20 pára-quedas. O lançamento foi feito de um balão a 150m de altura. Mediu-se o tempo de abertura, a razão de descida depois da abertura e avaliou-se a estabilidade. Seguem abaixo os resultados:
Razão de Descida(m/s) |
Tempo de Abertura(s) |
Estabilidade(1 a 5) |
Área (m2) |
Freestyle PRS2- 4/5 |
APCO PP16- 1,99 |
Freestyle PRS2- 5 |
Flight Design 24- 20,6 |
Freestyle PRS3- 4/5 |
Metamorfosi 16- 2,12 |
Comet RS34- 5 |
APCO PP16- 22,1 |
Trekking F22- 4/5 |
Metamorfosi 18- 2,14 |
Paradelta PD 37- 5 |
Metamorfosi 16- 22,1 |
APCO PP18- 5/6 |
Freestyle PRS2- 2,29 |
Paratech PS1- 5 |
Metamorfosi 18- 28,5 |
Charly Pro 140- 5/6 |
Flight Design 24- 2,35 |
Pro Design XS- 5 |
Flyten CD35- 30,5 |
Metamorfosi 16- 5/6 |
Metamorfosi 20- 2,47 |
APCO PP18- 4 |
Freestyle PRS2- 31,7 |
Metamorfosi 20- 5/6 |
Comet RS34- 2,47 |
Freestyle PRS3- 4 |
Paradelta PD 35- 31,8 |
Paradelta PD 37- 5/6 |
Flyten CD35- 2,52 |
Parawing SC24- 4 |
Freestyle PRS3- 34,1 |
Paratech PS1 XL- 5/6 |
Freestyle PRS3- 2,53 |
Metamorfosi 16- 3 |
Metamorfosi 20- 34,3 |
Pro Design XS- 5/6 |
Ailes de K 38- 2,55 |
Flyten CD 35- 3 |
Ailes de K 38- 34,5 |
Comet RS 34- 5/6 |
Paradelta PD 37- 2,63 |
Charlie Pro 140- 3 |
Pro Design 400- 34,9 |
Ailes de K 38- 6/7 |
Charly Pro 140- 2,67 |
ITV 38- 3 |
ITV 38- 35,1 |
F. Design 24- 6/7 |
Paratech PS1 XL- 2,74 |
Metamorfosi 18- 2 |
Charly Pro 140- 35,6 |
ITV 38- 6/7 |
ITV 38- 2,93 |
Flight Design 24- 2 |
Paratech PS1- 35,6 |
Metamorfosi 18- 6/7 |
Pro Design XS- 3,00 |
Ailes de K 38- 2 |
Comet RS34- 36,6 |
Flyten CD35- 6/7 |
Trekking F22- 3,05 |
Trekking F22- 2 |
Parawing SC24- 38,7 |
Parawing SC24- 6/7 |
Parawing SC 24- 3,43 |
Metamorfosi 20- 1 |
Trekking F22- 43,4 |
Observação sobre estabilidade: 5=totalmente estável / 4=estável / 3=pouco estável / 2=instável / 1=muito instável
Analisando-se os
resultados, verifica-se que os 3 menores pára-quedas (APCO PP16,
Metamorfosi 22.1 e Flight Design 20.6) apresentam resultados de
descida iguais ou melhores do que grande parte dos gigantes. O
que prova que grande não quer necessariamente dizer bem
projetado.
Do mesmo modo, se verifica que os Freestyle são bem projetados
pois têm área relativamente maior e apresentam o melhor
resultado, têm um bom tempo de abertura e são totalmente
estáveis.
O Trekking 43.4, por sua vez, também apresenta a melhor razão
de descida, mas com uma área desproporcionalmente maior. E com
um tempo de abertura muito grande(obviamente em razão do
tamanho) associado a uma instabilidade não desejável.
E há alguns que péssimos, ou por serem grandes e descerem forte, ou por serem lentos de abertura, mesmo pequenos, e uns poucos, com menos estabilidade do que a desejada.
Pense nisso. Muita gente, mundo afora, pode estar usando um reserva grande que vai descer igual ou pior que um pequeno e que vai demorar mais a abrir. E quando aberto, será menos estável que o menor. Exemplos disso são o ITV, o Metamorfosi 34.3, o Parawing e outros. É só analisar os resultados.
E lembre-se, instabilidade não faz diferença para quem é Pqd FE e adora aterrar se estabacando. Para nos mortais, dói.
E se você é um voador do tipo ralador, verifique que a diferença de tempo de abertura entre o melhor(APCO PP16 -1.99") e o pior (Parawing - 3.43") é de quase 1 segundo e meio, podendo fazer uma enorme diferença na hora da verdade a baixa altura.
Ademais, saiba que no DHV o limite máximo de razão de descida aceito para homologação é 6.8 m/s e no CEN/ACPUL 5.5m/s. O que quer dizer que dois pára-quedas homologados para um máximo de 100 kg no DHV e CEN terão razão de descida diferentes. O do DHV vai descer a 6.8m/s e o do CEN/ACPUL a 5.5m/s quando carregados com esse peso.
Paulo J. Pinto (para Airtime)