No penúltimo
número, baseado em artigo da revista Cross Country, escrevemos
matéria analítica sobre a homologação de parapente DHV.
Naquela ocasião, dissemos que publicaríamos oportunamente a
resposta da DHV.
Devemos confessar que ficamos numa situação extremamente
vulnerável sem ter muito o que escrever ante a aridez da insossa
resposta alemã publicada na mesma Cross Country. Estávamos numa
crise de criatividade, quando nos deparamos no último número
com uma carta de contestação ao nosso artigo. Ademais, tivemos
um incidente no Rio em que um piloto caiu no mar após fazer um
full estol. Esses dois fatos nos deram então assunto para este
número.
Quando o MAPIL foi
elaborado em 1992, deliberadamente nós omitimos qualquer
instrução sobre o procedimento de decolagem a fim de evitar que
alguém simplesmente começasse a voar na base do estudo
dirigido. Passado o tempo, a experiência mostrou que era melhor
escrever como fazê-lo do que evitar o assunto. Pelo menos,
assim, haveria como, em tese, aprender direito.
Ao escrever o Capítulo VIII de Emergências e Situações
Anormais, também refletimos bastante sobre a conveniência de
descrever manobras do tipo decrochage/full estol que dificilmente
ocorrerão num vôo normal, salvo se deliberadamente comandadas.
Depois de amadurecer a ideia, e ouvindo outras opiniões
decidimos, fazê-lo. Mas fizemos constar no manual:
" Não recomendamos esse tipo de treinamento, mesmo que você tenha uma boa experiência, um parapente de comportamento cordato e um perfeito conhecimento de como sair dessas manobras. Principalmente manobras do tipo decrochage e vrille. O que recomendamos é fazer um estagio de incidentes de vôo onde seja possível "
Sobre decrochage falamos especificamente:
"O decrochage é, portanto, uma manobra muito delicada e temerária que não tem razão para ser comandada por quem não tem a experiência de um SIV. Um decrochage mal executado envolve um grande risco de envolvimento do piloto com o velame caso haja um avanço descontrolado. Na melhor das hipóteses vai-se dar um tremendo tranco nas linhas com prováveis danos estruturais"
Hoje nós vamos
mais longe. Decrochage fora de um SIV, só para quem tem muita
prática. Mas muita mesmo.
Mas ocorre que pilotos mais destemidos estão se aventurando a
fazer a manobra baseados no que está escrito e na experiência
de quem já fez o treinamento específico.
Tudo bem. O arbítrio é individual. Apenas é importante lembrar
que AS SELETES MODERNAS FLUTUAM MAS EMBORCAM DENTRO D'ÁGUA
conforme frisamos na edição anterior. O piloto que caiu no mar
quase se afoga por esse motivo.
No que concerne a homologação AFNOR(adotada pela CEN - Comissão Européia de Normatização), convém recapitular. Em tempos idos, o parapente era testado em full estol e recebia a seguinte classificação:
Se, após
totalmente liberado o freio, o avanço fosse:
até 90 graus (horizonte)................................Nível 1
até 135 graus (45 abaixo do horizonte)...........Nível 2
além de 135 graus........................................Nível
3
Depois, com a adoção do sistema A, B e C em 12 quesitos a partir de 1991, o critério continuou igual:
A - até o
horizonte
B - até 135 graus
C - além de 135 graus
No sistema atual - Standard, Performance e Competition - decidiu-se não mais testar full estol.
Reside aí,
talvez, uma grande omissão, pois não custava nada manter a
manobra conforme os critérios anteriores. Certamente, todo mundo
gostaria de continuar conhecendo o comportamento do seu paraca,
na saída de um full estol, sem a interferência do piloto.
O sistema CEN tem a vantagem, no entanto, de nos 17 itens que
são testados(integralmente descritos no Capitulo V do MAPIL),
dizer exatamente, em termos muito claros, objetivos e
impossíveis de interpretação dúbia, o que faz com que um
parapente seja classificado em uma categoria ou outra.
Ademais, um parapente ou é Standard, ou é Performance. Não
existe essa tolice de parapente Standard com comportamento
Performance conforme citado na carta recebida.
Uma outra desvantagem inegável no sistema CEN, é a utilização
de apenas três categorias.
No campo da
didática, um instrumento de avaliação precisa se caracterizar
por quatro requisitos:
Validade.............Ele tem de avaliar exatamente o que
se deseja avaliar.
Abrangência.......Ele tem de avaliar todo o espectro do
que se deseja avaliar.
Diferenciação......Ele tem de diferenciar com precisão
diferentes níveis de comportamento ou desempenho daquilo que se
avalia.
Confiabilidade.....Ele tem de fornecer resultados
consistentes, independente de quem o aplica ou quando o aplica
naquilo que se avalia.
Comparando-se o sistema alemão da DHV(também adotado na Áustria) e o CEN (restante da Europa), verificamos que:
- A DHV adota 5
categorias (1, 1-2, 2, 2-3 e 3), sendo portanto, quanto à Diferenciação,
melhor que o CEN que utiliza apenas 3 (Standard, Performance e
Competition), embora nos pareça que o ideal devessem ser quatro
níveis pois os níveis 1 e 1- 2 são praticamente redundantes.
- O Sistema CEN atual tem menos Abrangência, pois parece
óbvio que ninguém iria reclamar se os parapentes também fossem
testados em decrochage/full estol como eram antes.
- O grande senão do Sistema DHV é a Confiabilidade
porquanto ele deixa a desejar por utilizar critérios subjetivos
para classificar o parapente, não havendo uma preocupação de
informar com precisão o porquê e o como da classificação em
uma categoria ou outra. O piloto de ensaio faz a classificação
e pronto. É de se duvidar que esse sistema apresente o mesmo
resultado independente de quem julgue e quando julgue um mesmo
parapente. No Sistema CEN, qualquer piloto, com um mínimo de
conhecimento e tendo o vídeo das manobras e os critérios, é
capaz de classificar o parapente sempre da mesma forma. O Sistema
CEN é confiável e sempre produz os mesmos resultados. Nos
critérios da DHV, é ferido o requisito da Confiabilidade
e este é o grande ponto de discórdia para que se encontre um
denominador comum entre os dois sistemas. O que se deseja é
apenas evitar a subjetividade da homologação alemã.
A despeito da
integração européia no campo da industria aeronáutica(o
Airbus, por exemplo, tem o flight deck feito na França, a
fuselagem na Alemanha e asas e empenagem na Itália e Espanha),
até agora não houve um consenso quanto à harmonização dos
critérios de vôo-livre(já houve, também, complicações no
que concerne a homologação de tubo de asa na Inglaterra que
utiliza critérios muito rígidos nos testes estruturais - parece
que pela BHPA o tubo tem de ser protendido, sem soldas).
Do ponto de vista de quem está de fora longe e procura ser
imparcial, nos parece que bastaria a DHV tornar seus testes de
parapente objetivos de modo a eliminar o julgamento subjetivo e
tudo funcionaria sem broncas(consta que a SHV suiça teria sido
credenciada pela DHV a fazer esses testes também, embora a
Suiça siga a norma CEN - talvez hajam encontrado uma maneira
objetiva de aplicar os critérios DHV que ainda não foram
tornados públicos).
Mas a verdade é que os alemães não cedem e usam de todos os
subterfúgios possíveis para fugir da discussão do problema na
mesa de reunião. Não é novidade essa posição irredutível de
querer impor vontade. Demora mas eles acabam entrando nos eixos.
É a historia quem diz.
Mas vejamos a
carta recebida. Nela é dado como o exemplo o Phocus, que na
homologação CEN é Standard e na DHV é Nível II. É dito
textualmente que "tem muito instrutor vendendo parapente
Standard que se levado ao DHV seria Performance". O que o
missivista provavelmente quis dizer é "seria Nível
II" e não Performance. Mais uma vez ele se atrapalha e
tropeça na falta de conhecimento do assunto.
Mas nós diríamos que realmente tem gente demais vendendo
parapente Standard para principiante. No Rio e num montão de
outros lugares mundo a fora.
Principalmente, na Noruega, França, Suíça, Espanha, Itália,
Portugal, Inglaterra e demais países da Europa que adotam o
sistema CEN. Provavelmente uns 3 a 4 mil parapentes Standard por
ano.
Melhor faria o missivista se escrevesse uma tese para uma revista
estrangeira, ou quem sabe para as associações desses países,
ou até mesmo para a Comissão Européia de Normatização,
manifestando a sua insígne opinião de que parapente Standard
nem sempre deve ser voado por novato e os alertando do perigo.
Talvez a Europa até reveja seus critérios e se curve ante o seu
imenso saber.
Mas quem quer que tenha lido essa carta com um conhecimento um
pouco maior das atividades no Pepino não deve ter entendido
nada.
Afinal então, pelo que foi dito, parapente para aluno tem de ser
somente DHV 1 pois nem todo Standard é seguro.
Como explicar
então a venda de Phocus(que é citado como exemplo do perigo da
homologação Standard da CEN) para aluno. E Caeser e Carrera. Ou
então, como se explica aula de Kestrel que era DHV IIIe. Os
pilotos que sabem dessas coisas ainda estão na área.
Mas a verdade é que não adianta buscar muita coerência no
texto em questão. Dessa lavra, o máximo que vai aflorar é papo
furado e sofisma. Notório saber, só mesmo na área de Snoopy e
Programa Sílvio Santos.
E outra coisa, o Axon não recebeu homologação Standard em
todos os tamanhos no sistema CEN conforme é dito na carta.
Alguns tamanhos são Performance(não lembro quais e não vou nem
me dar ao trabalho de procurar). Ou se está mentindo
deliberadamente, ou não se sabe o que se escreve.
Admitindo que não se sabe sobre o que se escreve, nós diríamos que o mínimo que se espera de alguém que vende uma marca é conhecer o seu produto. Parece não ser esse o caso.
Para quem tem acesso a Internet e quiser saber a quantas andam as tentativas de uniformizar dos critérios de homologação DHV/CEN, indicamos o site da Aerotests para o qual existe link no site http://www.gaveasky.com.br. Ali podem ser encontradas as atas das reuniões realizadas e são citadas as ocasiões em que a DHV deixou de comparecer e as alegações para fazê-lo.
E parodiando o Ibrahim Sued, "os cães ladram e os Futuras voam".