Ali estávamos
nós, no palanque da pista sul de Santa Cruz, aguardando a
demonstração aérea. Era 22 de Abril, Dia da Aviação de
Caça.
Quero crer que em todos os locais onde exista, ou tenha existido,
uma pista de pouso haja uma mística, um passado, enfim, uma
história. Alguns locais mais, outros menos. Todos, entretanto,
têm algo a contar, algo a reverenciar.
O Campo dos
Afonsos, por exemplo. Todo aviador da FAB que já passou pelo
"já lendário"(referência às palavras do Brig
Fontenelle que estão perpetuadas no azulejo à entrada do antigo
Corpo de Cadetes: "Não deixeis apagar de nossa lembrança a
nossa Escola, o seu velho, tradicional e já lendário Campo dos
Afonsos. Onde tanto sacrifício tem sido imolado em holocausto ao
mais belo e empolgante de todos os ideais - a Aviação")
não lhe fica imune.
Por isso, não há quem tenha sido forjado piloto ali que não se
emocione ao chegar na varanda do velho Cassino dos Oficiais de
frente para a imensidão daquelas pistas.
É nostálgico a gente se defrontar com aquele vazio imenso e
recordar a agitação da instrução de vôo de dias passados,
tempos que não voltam mais. Cada um, a seu modo, há de ser
capaz de imaginar a presença de Nieuports, Spads, Wacos, BT-15,
T-6, PT-19, T-21 e muitos outros.
Os mais conhecedores tentarão até imaginar os Bleriot da Escola
Brasileira de Aviação e de Nicola Santo na segunda década do
século.
As gerações mais novas todavia, talvez não mais vejam o
"já lendário" sob essa ótica. Mas é fácil de
entender. Ainda está para surgir quem venha se emocionar com
saudades do Curso de Aperfeiçoamento ou do Curso de Estado-Maior
que hoje funcionam nos Afonsos. Aí, certamente, a razão da
indiferença de quem não foi cadete nos Afonsos.
Em Santa Cruz, no
entanto, as recordações são restritas a um universo bem menor.
A base é operacional.
Aviação de Caça e Patrulha. Resulta que nem todo Caçador e
nem todo Patrulheiro tenha cumprido etapa de sua vida operacional
ali.
Mas quem serviu em Santa Cruz não se esquece jamais. Cada
árvore, cada pedra, cada recanto reavivam memórias. Pois nós
estávamos no palanque e recordando.
Os acidentes ocorridos na cabeceira da 04. Quanta gente ficou no
Mangue! Os amigos que se foram e até as coisas que não existem
mais.
Lembramos do "stand" de tiro-aos-pratos, onde os
Caçadores exercitavam sua capacidade de fazer tiro de
deflexão(herança da 2a Guerra quando, no início,
ainda não se usava o visor giro computador). Nós, por inércia,
mesmo depois do Gloster e F-80, continuamos fazendo esse tipo de
treinamento até os anos 70!
Recordamos que o "stand" tinha o nome do
"guerreiro" Diomar Menezes, Caçador na Itália,
falecido na instrução de caça logo depois do regresso ao
Brasil.
Acabou-se o tiro aos pratos, desativou-se o "stand" e
é possível que tenham esquecido do Diomar. Mas por certo,
alguém que tenha o livro "Senta a Pua" do Brig Moreira
Lima na cabeceira, algum dia, colocará o nome dele em destaque
outra vez.
Ao longe visualiza-se majestoso, o Hangar. Que coisa
extraordinária deve ter sido a operação do Graf Zepelin!
Alguém aponta para a grande bola metálica e comenta que era o
tanque alemão de hidrogênio. Logo é corrigido. Não, a bola
era o tanque de Helium usado pelos "blimps" americanos
durante a guerra.
Esses aparelhos operaram no Brasil incorporados a dois
esquadrões que estiveram desdobrados em Maceió, Fortaleza(Campo
do Pici) e São Luiz e a existência do hangar alemão em Santa
Cruz, com toda a infraestrutura pronta, levou a USNavy a sediar
ali a sua base de manutenção.
O portão existente perto do Cassino ao lado da Central
Telefônica era a entrada da base americana e uma boa parte dos
alojamentos de hoje são herança dessa época.
O tanque de hidrogênio alemão era do tipo cilíndrico e de
volume variável, igual aos existentes na Companhia Estadual de Gás
no início da Avenida Brasil. Esse tanque ficava ao lado da
piscina de refrigeração da Casa de Força e nós chegamos a
vê-lo já em ruínas.
O tanque "bola" fora adaptado para uso como
reservatório de água, se não me engano, em 1963 pelo Cel
Moreira Lima, quando Comandante da Base.
Mas logo se mudou de assunto e passamos a conjecturar de quando iríamos ver o P-47 do Museu voando em um 22 de Abril.
Aí, não lembro bem, mas o Dagberto começou a contar que havia sido menino em Natal. Ou melhor, lembro sim. Eu havia comentado que a despeito de ter uma vontade enorme de voar o P-47, o avião dos meus sonhos sempre tinha sido o P-38 Lightning. O Diabo de Duas Caudas como o chamavam os pilotos da Luftwaffe. O avião inconfundível - não havia como não reconhecê-lo.

Foi o primeiro avião de caça a usar comandos hidráulicos de
aileron. Foi projetado pelo mago Clarence "Kelly"
Johnson. O mesmo que bolou o F-80, o F-104, o SR-71 e muitos
outros excepcionais aviões que foram marcos na história da
aviação. A asa do P-38 era tão eficiente que permitiu à
Lockheed usá-la no Constelation e tomar a dianteira do
transporte aéreo após a 2a Guerra.
Foi o P-38 que, em missão memorável, interceptou e abateu,
sobre a Ilha de Bougainville, o avião do Almirante Yamamoto, o
planejador e comandante do ataque japonês a Pearl Harbor. Foi o
primeiro Caça a escoltar, ida e volta, os B-17 e B-24 nos
ataques ao coração da Alemanha(o que o P-51 Mustang também
faria mais tarde).
O P-38 era tão aerodinâmico que em mergulho entrava em
compressibilidade sem que seus pilotos no início entendessem
direito que aquelas coisas estranhas que ocorriam estavam
relacionadas com a barreira do som! Era um avião que voava como
um jato, sem tendências, uma vez que seus motores eram
contra-rotativos. Foi o avião voado por Richard Bong, o grande
ás americano que abateu 40 inimigos no Pacífico.
Mas havia detratores. Sempre os há. Diziam que o P-38 era muito
grande e pouco manobrável em combate. Perdia para o Zero, Me 109
e FW 190. Esqueciam, no entanto, que com a performance que
possuía, ele permitia ao seu piloto decidir quando e onde
combater.
Manobrável por manobrável, o Fokker Triplano de 1917, por
certo, era mais. Do mesmo modo que o Xavante o é em relação ao
F-5 e Mirage hoje. Mas eu é que não queria estar de Fokker ou
Xavante combatendo esses oponentes.
Sempre defendi o P-38 dos detratores. Apenas uma crítica me
deixava vulnerável. Era quando alguém muito conhecedor e expert
argumentava que "um avião de caça de pedigree não pode
usar volante".
Pois é, o P-38 tinha volante! Acho que foi a única coisa errada
que o Kelly Johnson fez em toda a vida de projetista. Mas
ninguém é perfeito.

Foi aí que o
Dagberto começou a falar de Natal. Justamente por ter visto
inúmeros P-38 passarem por lá. É que durante a 2a guerra,
a USAAF usou duas rotas de vôo para os Teatros de Operações.
A Northern Ferry Route que subia pelo Canadá, Groenlândia,
Islândia e chegava ao arquipélago britânico pela Escócia(era
a rota preferida mas só que a coisa engrossava no inverno e
diversas tentativas de forçar a barra resultaram desastrosas -
até hoje estão tentando tirar uma esquadrilha de P-38 que fez
um pouso de emergência nas planícies geladas junto com o B-17
que os liderava e está enterrada sob mais de 50 m de gelo).
A outra rota era a Southern Ferry Route que passava por Natal e
era a alternativa. Foi também, em certa época, quando o
domínio japonês no pacífico era absoluto, a rota primária
para o sudeste asiático.
E por Natal passarm 160 P-38 destinados ao Pacífico. Com
certeza, foi um desses que o Dagberto viu. Mas ele tinha algo de
mais espetacular a acrescentar. Por Natal também passavam
aviões construídos no Canadá para a RAF(Royal Air Force).
Na planta da Base Americana emoldurada na entrada do Cassino em
Natal, consta o prédio usado com escritório da RAF.
Contou o Dagberto que havia presenciado um extraordinário
combate simulado entre um P-38 americano e um De Havilland
Mosquito inglês. Provavelmente aviões em vôo local de
experiência ou, quem sabe, chegando juntos no destino que se
engajaram num sensacional pega sobre a Base. Que coisa deve ter
sido.
O chato foi quando ele disse que o Mosquito havia tripudiado
sobre o Lightning. Só pude concordar que o Mosquito fora,
realmente, um avião notável. Possuía dois motores Rolls Royce
Merlin(os mesmos do Spitfire e Mustang) e era muito leve,
construído inteiramente de madeira. Eu poderia ter até ter
apelado e dito que avião de madeira não era avião de guerra.
Mas o Mosquito era. E dos bons, e eu não disse.
Mas o que eu falei foi que, com toda certeza, o P-38 deve ter
sido mal voado. Por algum pé-de-chumbo.
Nisso os F-5,
Xavantes, Mirages e AMX iniciaram a decolagem e nós abandonamos
as reminiscências e começamos a sonhar. Que éramos nós que
estávamos pilotando naquele momento.
Foi quando o meu amigo Tommy de Niterói nos lembrou que agora
nós éramos do Esquadrão Condor: com dor na coluna, com dor no
joelho, com dor no ombro, etc.
Aí fomos para o coquetel. Quem não estava com dor de cotovelo
aproveitou para levantar copos e continuou-se jogando conversa
fora por um bom tempo.
Eu, por coincidência, entrei para o Esquadrão Condor no dia
seguinte quando desafiei um vento lateral forte e uma rajada
traiçoeira me derrubou na decolagem de asa-delta.
Acho que foi uma admissão consagradora no Esquadrão porque doeu
paca. E ainda dói!
Acho que só vai passar se eu nascer de novo.
Até que seria bom. Quem sabe não dava para reformular as
coisas. Talvez até para voar de P -47.
E de P-38. O Diabo de Duas Caudas como o chamava a Luftwaffe. O avião inconfundível - não havia como não reconhecê-lo...