A revista francesa
Cross Country publicou recentemente(número 53, Out 97) um artigo
sobre a interminável discussão entre a homologação alemã da
DHV(Federação de Vôo Livre da Alemanha) e a da CEN (Comissão
Européia de Normas, que basicamente adotou o sistema AFNOR,
Associação Francesa de Normas). No mesmo número da revista, a
DHV publicou sua réplica.
As informações aqui contidas foram extraídas desse artigo. A
réplica, a publicaremos na próxima edição.
Compare-se,
inicialmente, a indústria de parapente dos países de língua
alemã e a do resto da Europa Ocidental.
Estima-se que atualmente o mercado mundial absorva cerca de 20
mil parapentes por ano. Desse total, aproximadamente 11-12 mil
são vendidos por nove fábricas alemãs e austríacas. Os
restantes 8-9 mil são vendidos pelos fabricantes de outros
países, incluindo os asiáticos que vendem cerca de 5 mil. Isso
deixa uma parcela muito pequena para as marcas da França,
Inglaterra, Itália e Espanha.
Para se entender melhor esse quadro, é necessário que se saiba
que para vender um parapente na Alemanha é preciso que o
equipamento seja homologado pela DHV, pois a homologação
CEN/AFNOR não é reconhecida e não se permite que equipamentos
com essa homologação sejam vendidos no mercado local.(1)
É fácil,
portanto, identificar as razões da diferença entre a fulgurante
indústria alemã e a dos demais países que lutam a duras penas
para sobreviver.
Ao leigo, pode parecer que isso seja conseqüência da
existência de uma pedra filosofal alemã que lhes assegure a
verdade absoluta e daí resulte que tenham uma engenharia
superior ou talvez mão-de-obra mais barata ou até mesmo melhor
habilidade comercial. Mas a realidade é que essas qualidades
também estão presentes na indústria dos demais países em
qualquer setor que se procure comparação.
Há dez anos atrás, a situação estava bem mais equilibrada. A
maioria dos parapentes tinha origem fora da Alemanha/Áustria e
eles detinham apenas cerca de 10-20% do mercado mundial mas, de
forma surpreendente ao longo desses anos, eles aumentaram a sua
participação para mais de 50 %.
Deve ser dito que não houve mágica nem milagre. Isso foi
conseguido principalmente com a ajuda exclusiva da DHV que, com
suas normas protecionistas, usa a homologação como uma
eficiente barreira comercial contra os estrangeiros.
Mesmo quando um produto estrangeiro consegue homologação pela
DHV, as dificuldades apostas são de tal ordem que se torna
proibitivo competir com o produto local, sendo incontáveis, e os
mais variados, os recursos e argumentos burocráticos contidos no
arsenal de regras não-escritas que lhes permite estabelecer que
um produto de fora não esteja de acordo com os "elevados
padrões alemães".
Essas regras incluem:
1- A DHV não
aceita contato direto com um fabricante estrangeiro. É
necessária a intermediação de uma empresa alemã tornando a
comunicação bilateral, se não impossível, pelo menos,
problemática.
2 - O fabricante é obrigado a fornecer todos os projetos,
desenhos, plantas e técnicas industriais a esse intermediário
alemão, expondo assim seus segredos e ficando na dependência da
nem sempre existente boa-vontade desse representante em bem
representá-lo.
3 - A homologação passa a ser propriedade do representante
alemão e não do fabricante, criando um indesejável vínculo e
uma dependência quase impossível de romper.
4 - Os testes de homologação são marcados aleatória e
arbitrariamente sem que o fabricante ou seu representante tenham
aviso prévio.
5 - As normas, diretrizes e a correspondência só são emitidas
em alemão.(2)
6
- Não existe clareza nem precisão no estabelecimento das datas
em que os testes serão realizados, ficando tudo na dependência
do tempo, do nevoeiro, da doença da tia de alguém e do estado
de espírito e disposição do piloto de ensaio.
7 - Os pilotos e o efetivo da DHV formam uma autocracia, testando
de acordo com regras e normas estabelecidas por eles mesmos e sem
ter de prestar contas a ninguém.(3)
8
- Não existe nenhum critério para julgar o resultado de um
teste salvo o relatório do piloto, sendo esses relatórios
desprovidos de qualquer objetividade.(4)
Por esses motivos,
para muitos do meio, a DHV é rotulada de "Máfia
Alemã".
O mercado alemão hoje absorve cerca de 5 mil parapentes por ano
vendidos, quase que exclusivamente pelos fabricantes locais, em
vista das dificuldades criadas para a entrada do produto
estrangeiro. Isso cria uma exclusividade e uma competição
desleal e em desacordo com os objetivos da integraçao comercial
do continente e a máquina de propaganda da DHV usa a reconhecida
reputação da industria alemã, especialmente a
automobilística, para enaltecer a sua homologação como melhor,
superior e mais fidedigna.
Em contrapartida, os demais países europeus permitem que os
equipamentos alemães sejam vendidos dentro de suas fronteiras
apenas com a homologação DHV, mesmo sabendo que eles não
aceitam a homologação CEN/AFNOR. Isso permite à indústria
alemã acesso livre a novos mercados aumentando ainda mais a sua
participação geral.
Os alemães tem assim uma injusta vantagem na competição com os
demais fabricantes europeus. Mesmo considerando que os franceses
tem amor pela perfeição, os italianos pela estética e os
ingleses pela persistência, lhes é difícil competir sob
condições tão desiguais.
O resultado dessa política comercial é que para cada fabricante
alemão de parapente há dois falidos na França, Itália ou
outro qualquer país com industria própria.
A recente integração da homologação alemã/austríaca nada
mais é do que uma troca de favores de modo a preservar e
proteger os seus respectivos mercados de produtos estrangeiros.
Ou seja, mais uma barreira comercial.
É indiscutível que a maioria dos fabricantes tem condições de cumprir os requisitos de homologação DHV, bastando que eles sejam mais objetivos, e que entidades de reputação ilibada como a Aerotests, SHV(Federação de Vôo livre da Suíça) e BHPA (Associação de Vôo Livre Inglesa) têm condições de realizar esses testes.(5) Mas isso implicaria na perda de poder comercial da DHV e sua conseqüente capacidade de controlar e proteger o mercado alemão.
Esta é a razão da enorme oposição a:
- aceitar outros
padrões de homologação.
- aderir aos padrões CEN/AFNOR.
- aceitar que qualquer outra entidade se encarregue da
homologação, mesmo que seguindo seus requisitos.
Sendo assim, na
próxima vez que você pensar em adquirir um parapente alemão,
leve em consideração o que foi dito e não o compre até que o
fabricante de seu país tenha uma oportunidade justa de competir
no mercado alemão. Ou até que a homologação seja unificada.
Em determinada época, era comum nos EEUU adesivos de
pará-choque que diziam: "Está com fome? Coma o seu carro
japonês".
Está na hora dos demais países europeus pensarem um pouco sobre isso...
(1) Ao que estamos informados,
um parapente com homologação CEN/AFNOR já pode ser vendido na
Alemanha. As restrições apostas teriam a ver com seguros,
atendimento médico, etc.
(2) Recentemente a DHV tem
procurado divulgar seus documentos também em inglês.
(3) Na homologação
CEN/AFNOR, o piloto executa as manobras mas não tem autoridade
para classificar o parapente, sendo isso feito por uma comissão
que analisa o seu relatório frente ao tape das manobras; a
classificação ademais, é feita de forma muito objetiva com
critérios muito claros e bem definidos.
(4)
Consta
que a Air Turquoise, empresa que faz a homologação CEN/AFNOR
para a SHV (Federação Suíça), teria sido reconhecida
recentemente pela Alemanha como capaz de fazer a homologação
seguindo as normas DHV.
(5) A DHV classifica os
parapentes em 5 categorias que são bastante lógicas(embora a 1
e 1-2 se sejam redundantes e se confundam) mas muito difíceis de
definir:
Nível 1:
Paragliders with simple and very forgiving flying
characterisitics.
Nível 1-2: Paragliders with good-natured flying characteristics.
Nível 2: Paragliders with demanding flying characteristics and
potentially dynamic reactions to turbulence and pilot errors.
Nível 2-3: Paragliders with very demanding flying
characteristics and potentially violent reactions to turbulence
and pilot errors.
Nível 3: Paragliders with very demanding flying characteristics
and potentially very violent reactions to turbulence with little
little scope for pilot errors. For expert pilots.
As normas, por sua vez, quando se fixam nos testes de vôo, dizem como o parapente será testado especificando os detalhes das manobras mas não definem claramente como ele será classificado, deixando a decisão entregue a subjetividade semântica de termos do tipo "average, above average, etc".