Informe Gávea Skywalkers

Campeonato Brasileiro '95 - Andradas

Depois de uma semana de um vento constante, atípico, estranho e meio perigoso(noroeste variando de 20 a 45km/h), de frente fria que ameaçou entrar e não entrou e de frente fria que entrou para valer, terminou, com a participação de 77 competidores, o Brasileiro de Parapente deste ano. Das sete provas previstas, foram realizadas apenas quatro e, assim mesmo, uma foi anulada o que, do ponto de vista de uma avaliação meramente acadêmica, poderia nos levar a dizer que o resultado não teria tido a confiabilidade desejável.

Quem esteve em BH no Circuito Fourteen, e agora em Andradas, no entanto, sabe que não. Ganhou o Moisés Sodré de Valadares com absoluta serenidade como poderiam ter ganho o Caio, o Pasquale, o Ricardo Baby ou o Erich. Foram eles os destaques do evento. O Caio não foi surpresa para ninguém, pois de há muito ele vem dominando o cenário em São Paulo. O Pasquale ganhou em BH e já havia demonstrado sua capacidade e o Moisés, voando lá com um antiquado Phantom, também já havia apresentado o seu cacife chegando em nono lugar. E mesmo que a primeira prova não tivesse sido anulada, o vencedor geral estaria entre eles, porquanto todos estavam entre os que chegaram no gol. O que poderia acontecer seria uma inversão nas posições, talvez o Caio em primeiro e o Moisés em segundo.Ou o Baby, quem sabe ?

Aliás, essa prova anulada foi a primeira de muitas frustrações que aconteceram em Andradas (esperava-se um primor de organização da APP e o que se viu foi a Inahiá se virando sozinha). Era um gol no trevo de Santa Rita de Caldas a 33km e 14 pilotos fecharam a prova (Caio - Xenon, Gerolme - Genesis, André Fleury - Xtra, Stieglair - Pro Design, Holzmuller - Xenon, Ricardo Baby - Xtra, Cristiano -Supra, Paulo Pinto - Xtra, Moisés - Genesis, Erich - Tornado Competition, Frank - Axiom, Pasquale - Energy, Delfim - Xenon e Jeroca - Energy). Pois bem, não é que os seis primeiros a chegarem no gol o fizeram antes do juiz de pouso ! E sabem por que ? Porque o motorista da Prefeitura não quis levar a Claúdia que era o juiz por achar que era muito longe ! O assunto poderia ter sido resolvido de "n" maneiras diferentes entre os 14 que chegaram sem os prejudicar, mas a direção da prova optou pela anulação. A segunda prova foi gol em Ipiúna a 44km. Chegaram 2. A terceira, gol em Borda da Mata a 55km. Chegaram 3. E, finalmente, a última com gol de novo em Ipiúna. Fecharam 18. Nesta última prova, o Maurício, que era o juiz geral, se impôs à Comissão Técnica exigindo uma prova onde mais gente terminasse e decidisse a vitória no relógio.

Tecnicamente, os resultados foram bastante expressivos, embora se deva reconhecer que o vento impediu qualquer outro tipo de prova que não fosse gol na direção favorável (em uma das provas o nosso GPS chegou a marcar 66km/h !).

Alguns destaques individuais merecem registro : o Ricardo Baby de Porto Alegre que voou muito bem fechando a prova anulada e também a segunda em Ipiúna (ele só não fechou a primeira porque passou da cidade e pousou em Sen. José Bentes - foi informado no brifim que Ipiúna ficava a 36km quando na realidade fica a 44km e isso deu um nó na cabeça do gaúcho, sendo até possível que ele ficasse em primeiro na classificação geral não tivesse havido esse rolo). Diga-se a bem da verdade que, até a intervenção do Maurício, parecia que a Comissão estava mais preocupada em dificultar as chegadas no gol do que outra coisa - não queriam, por exemplo, repetir prova, dando a nítida impressão de que o objetivo maior era atrapalhar a vida de quem vinha de longe e não conhecia a região; chegaram até ao absurdo de escolher uma prova para Congonhal que não constava do mapa distribuído aos competidores (que foi de uma pobreza franciscana), mas aí foi demais e eles voltaram atrás. O André Fleury, lá de Brasília, também mostrando um progresso extraordinário em oito meses de vôo, andou fazendo, entre treinamento e competição, alguns vôos de 30 e 40km e um de 70km (Pouso Alegre). E o André Luiz conduzindo o Spectra com maestria foi o único a fechar uma prova com um parapente intermediário (ele jura que ganhou a última prova pois teria havido um erro de anotação - o juiz marcou a decolagem dele na hora de abertura da janela, ele foi o primeiro, quando, em verdade, ele saiu no final dos 3 minutos a que tinha direito e essa diferença o faria ganhar - o próprio Holzmuller reconheceu isso no pouso, mas, depois, quando consultado oficialmente, roeu a corda).

No geral a organização deixou muito a desejar. Não havia foto dos gols e quem não era do local o tinha de ficar procurando . Quem tinha condução própria chegava primeiro na rampa e se posicionava para decolar na frente. Quem chegava de caminhão ficava para o final e acabava não decolando porque o vento aumentava (isso aconteceu em todas as provas e a sugestão de que, pelo menos, se sorteasse de véspera a ordem de decolagem, uma vez que não havia análise de condição nenhuma - todo mundo sabia que com aquele diabo daquele vento noroeste o negócio era decolar logo - não sensibilizou o juiz geral; houvesse sido adotado esse critério, as coisas, por certo, teriam corrido de modo muito mais justo, harmonioso e educado - só faltou ter cambista vendendo lugar na fila). O mapa distribuído, por sua vez, deixou muito a desejar e fez falta, ainda, algum dispositivo de som, nem que fosse um megafone, para o juiz se fazer ouvir melhor nos brifins. Ademais, com as amplas e excelentes instalações do QG, um brifim geral de abertura também não teria feito mal algum a ninguém, mesmo considerando as inevitáveis interrupções dos gaiatos de plantão que ocorreriam no início (bastaria lhes reservar os cinco minutos iniciais para piadas e palhaçadas e o assunto seria contornado).

Tudo isso, por certo, não deve ter causado impressão muito boa no Stefan Stieglair (último campeão mundial - Japão 1994) que competiu para avaliar o local para uma possível etapa PWC. Ele chegou a comentar com alguém que, com aquele vento, considerava as condições perigosas para os padrões PWC o que, cá entre nós foi uma grande cascata - sabemos que eles já realizaram competições em situacões muito mais hostís, o que também não quer dizer que achemos que as condições eram seguras, pois não eram. Havia riscos e eles foram assumidos. Todos os que lá estavam sabiam disso. Caso contrário o que fazer? Cancelar tudo?

O que certamente marcou um ponto muito favorável e que compensou todas as demais deficiências foi a presença do helicóptero com dois voadores a bordo (Márcio, no início, com o Bruno, depois). Realmente eles fizeram um trabalho espetacular no socorro prestado aos acidentados. Parabéns ao Adonis e à toda a equipe e em especial ao Bruno que bolou toda a operação. Não se pode mais pensar em competição sem helicóptero. Mesmo que se tenha que pagar altas taxas de inscrição.

No final, entre merrecados e feridos, pode-se dizer que valeu. O que ficou evidente foi que aflorou uma nova geração de pilotos oriundos de bons locais de vôo que se destacou sobremaneira na competição. Sobretudo usando o relógio e fechando as provas rápido. Vamos ver se a partir de agora, as Comissões Técnicas caem na real e passam a escolher provas que muitos terminem e o cronômetro decida quem venceu. Escolher prova complicada de terminar só serviu para manter a maioria dos pilotos do Rio totalmente fora da realidade (quando a primeira prova no trevo a 33km foi anulada com 14 pilotos no gol, a lógica indicava que ela fosse repetida, só que escolheram a próxima em Ipiúna onde só chegaram 2; aí, em vez de repetirem, escolheram um local mais longe ainda: Borda da Mata, onde só chegaram 3 e de onde, por sorte, poucos se aproximaram porque se não ia ter gente perdida até hoje na travessia da Serra do Elefante). É hora de rever conceitos anacrônicos. Há muito tempo que batemos nesta tecla. Será que aprendemos a lição ou na próxima vamos começar tudo de novo ?

Para finalizar, uma palavra sobre a escolha da Comissão Técnica. Se existe uma eleição é de se supor que os pilotos votem em quem os irá representar e defender o pensamento geral ("todo poder emana do povo e em seu nome deverá ser exercido" também se aplica ao caso). Mas é isso que acontece ? É claro que não. Uma vez eleita, a Comissão, via de regra, passa a "viajar" na escolha das provas e se esquece que foi eleita para representar os pilotos e não seu próprio interesse. A escolha de provas onde poucos terminem é um exemplo claro. É só ver o que acontece com a pontuação quando muitos completam e o relógio decide. Somos de opinião que, em qualquer prova finita, pelo menos 30% dos competidores devam decolar com boa chance de chegar ao gol. Não se pode esquecer, ainda, os aspectos de segurança. Uma prova tem de levar em consideração a facilidade de socorro a algum acidentado e a facilidade de resgate. Se não, o risco que se corre é inadmissível. Quando você votar, faça-o em quem você tem certeza que vai defender o seu interesse. E cabe aos juízes zelarem para que isso aconteça. Como o Maurício fez. Foi a primeira vez e esperamos que não seja a última. O regulamento é claro. A Comissão assessora o juiz, mas a decisão é dele. "Onde não há autoridade, se dispersa o povo" (Aristóteles). O juiz tem de ser ativo e exercer a sua autoridade. Simplesmente "lavar as mãos" e dizer que foi a comissão que decidiu é se omitir.

Esperamos, também que todos reflitam sobre a sugestão de sorteio de ordem de decolagem. É a melhor forma de se evitar desgastes e baixaria quando as condições indicarem ser o procedimento mais racional. Se você concorda, defenda esse ponto de vista. A competição somos nós, pilotos do Brasil. Não interessa se na Europa é diferente. Lá eles decolam juntos, às dezenas, em verdejantes colinas cobertas de margaridas, só faltando a Julie Andrews cantando "The sound of Music". Esse é um assunto que merece uma consulta pública no próximo campeonato. É só constar da ficha de inscrição. Devemos, também repensar esse negócio de fechar a prova cruzando a faixa. Isso só traz confusão (na última prova o Jeroca não fechou porque o juiz disse que ele passou a 250m e não a 200m; ora, como pode um juiz distinguir do chão o que é 200 e o que é 250m ? Melhor seria fechar com o pé no chão e pronto.Vamos esquecer o que os outros fazem e estabelecer nossas próprias regras).

E parabéns ao Moisés e ao Clube de Valadares. Bons vôos. E aproveitem o Ibituruna. Não é qualquer um que o tem no quintal.

 

RESULTADO GERAL

1-W.Holzmuller...........2700pts 11-Stefan Stiegler..........1831pts

2-Moisés Sodré.........2604pts 12-Flavio P......................1812pts

3-Caio Reis................2372pts 13-João Luiz C................1792pts

4-Ricardo Baby..........2303pts 14-Fernando M................1763pts

5-Ruy Marra................2227pts 15-Jeroen Servaes......... 1745pts

6-Erich Sprung............2157pts 16-Daniel Schmidt...........1710pts

7-Luiz Pasquale..........2142pts 17-André Luiz...................1623pts

8-Marcela Boher.........2058pts 18-Paulo Volles................1568pts

9-André Fleury.............1884pts 19-Toninho M....................1485pts

10-Jerolme N..................1868pts 20-Alfredo M.....................1420pts

 

DESEMPENHO DOS VOADORES DE APCO

Ricardo Baby (XTRA 30) - Prova 1 (anulada), chegou no gol; Prova 2, colocação: 7, pousou na cidade errada (Sen. J.Bentes); Prova 3, colocação :8; Prova 4, colocação: 2 (chegou no gol).

Marcela Boher (XTRA 28)- Prova 1 (anulada), voou 23km; Prova 2, colocação: 29, Prova 3, colocação: 3; Prova 4, colocação: 7(chegou no gol ).

André Fleury (XTRA 28)-Prova 1 (anulada), chegou no gol; Prova 2, colocação: 44; Prova 3, colocação: 6; Prova 4, colocação: 5(chegou no gol ).

André Luiz (Spectra 30)-Prova 1, voou 27km; Prova 2, colocação: 45; Prova 3, colocação : 22; Prova 4, colocação: 4 (chegou no gol).

Toninho M. (XTRA 30) - Prova 1 (anulada), voou 29km; Prova 2, colocação: 13; Prova 3, colocação: 19; Prova 4, colocação: 29.

Ruy Pinto (SUPRA 30) - Prova 1 (anulada), voou 27km; Prova 2, colocação: 58; Prova 3, não decolou, vento; Prova 4, colocação: 14 (chegou no gol).

Paulo Pinto (XTRA 32) - Prova 1 (anulada), chegou no gol; Prova 2, colocação: 19; Prova 3, não decolou, vento; Prova 4, não decolou, pane de cotovelo.

Cristiano Almeida (SUPRA 28) - Prova 1 (anulada), chegou no gol, Prova 2, colocação: 35; Prova 3, merrecou; Prova 4, não decolou, pane de tornozelo.

COMENTÁRIO: Considerando todas as decolagens, inclusive as da prova anulada, os APCO chegaram ao gol 9 vezes (6 de XTRA, 2 de SUPRA e 1 de Spectra). Ou seja, em 28 decolagens, 9 fecharam no gol. Uma porcentagem superior a 30%. Nada mal. Cabe ainda ressaltar que o único parapente intermediário a fechar uma prova foi o Spectra do André Luiz. Quanto aos aspectos de segurança, à despeito do rigor das condições reinantes, não tivemos registro de qualquer incidente com nossos voadores. .

 

NOTICIÁRIO

- Impressionante o domínio do Walter Holzmuller sobre o velame em vôo. Ele é capaz de entrar em vrille (de Xenon, o que não deve ser brincadeira) e descomandar no tempo exato para aproveitar a desacelerada do giro de modo a tornar o negócio extremamente elementar.Tudo sem twist, sem avanço, sem nada.

- Extremamente competente, também o vôo dele em competição. Sua velocidade é impressionante.

- O Stiegler, ao contrário, mostrou ser um piloto seguro e hábil, mas longe do Waltão.

- Parabéns ao Moisés, ao Caio, ao Baby, ao Ruy Marra, ao Erich, ao Pasquale, à Marcela, ao André Fleury e ao Jerolme por haverem chegado na frente do atual campeão mundial.

- Houve uma bem dosada distribuição na colocação dos parapentes de alta dos pilotos brasileiros que chegaram nos primeiros lugares. Entre os 3 primeiros, Genesis, Xenon e Xtra. Entre os 10 primeiros, 1 Tornado Competition, 2 Xenon, 2 Genesis, 2 Energy e 3 Xtra. Entre os 20 primeiros, 1 Tornado Competition, 1 Tornado, 1 Spectra, 1 Mondial, 1 Rainbow, 2 Sphinx, 3 Xenon, 3 Genesis, 3 Energy e 4 Xtra.

- Por equipe a classificação foi; 1º - XTRA (Baby, Marcela e André), 2º - Genesis(Moisés, Jerolme e Daniel), 3º - Xenon(Caio, Marra e Alfredão) e 4º -Energy(Pasquale, João Luiz e Jeroen).

- Quando todo mundo começou a copiar a forma retangular com ponta de asa reta do Omega e a dizer que era a forma mais eficiente para redução de arrasto induzido à baixa velocidade, nós, ironicamente, retrucamos que era verdade. Bastava olhar a natureza para constatar como o Onipotente Senhor havia projetado as gaivotas. Pois é, o Robert Graham deve ser um tremendo gozador porque agora, que todo mundo o copiou, ele lançou o novo protótipo da Advance com que Bollinger voou em Piedrahita. É elíptico, alongado e de ponta afilada. Igual às gaivotas. Ele deve estar às gargalhadas.