Air Show
Las Aguas Malas

Não tem muito tempo, em um Domingo, eu fui almoçar no Clube de Aeronáutica na Barra da Tijuca no Rio, onde funciona a Divisão de Ultra Leves.
Fui com a família. Filho, netos, mulher, nora e alguns amigos. E com o André Gentil, emérito voador de Boeing 767 e também, de pano-de-chão.
Ele, do mesmo modo, com a família.
Obviamente, acabamos fazendo um Clube do Bolinha com os homens de um lado e as mulheres do outro. Para desespero da Rô que também estava no grupo e doida pra entrar no papo que rolava entre nós.
Na verdade, a minha nora , Alexandra, ex-voadora, e a esposa do André, Alessandra (nossa, que rolo!), que parou há pouco tempo, tambem não estavam gostando nada do blá-blá do Clube da Luluzinha.
E o papo que rolava, como sempre, era sobre vôo. Motorizado e Livre.
Discutimos durante um bom tempo o acidente do Herbert do Páralamas, de quem fui "tio" em outros tempos e com quem meus filhos viveram uma época de sua puberdade.
Recordo bem haver comentado a semelhança do acidente dele com o do John Denver, também de ultra-leve, fazendo manobras à baixa altura na Califórnia.
E lembro muito bem haver lhes contado mil estórias sobre acidentes semelhantes que tive de assimilar na minha vida de aviador militar.
Eles aconteceram, acontecem e continuarão acontecendo.
É aquele velho filme, já conhecido, do vôo para mostrar aos amigos e à família que se é piloto. Enfim, o desejo e a alegria de provar aos íntimos que se sabe voar. E de preferência, fazendo coisas alegóricas.
Mas é preciso um domínio e uma disciplina mental muito grande para não se passar dos limites daquilo que se sabe fazer com segurança. Da alegoria segura para a ousadia arriscada.
Porque, até mesmo quem sabe fazê-las com segurança, às vezes erra. E a Lei da Gravidade não perdoa. Especialmente, baixo.

Eu contaria três episódios que caracterizam bem como esse trágico mecanismo funciona:

-Nos idos dos anos sessenta, em uma demonstração do Dia do Aviador em Porto Alegre, o Esquadrão de Caça de Canoas, o Esquadrão "Pampa", iria fazer uma demonstração de tiro e bombardeio. Era dia de "portões-abertos" e milhares de pessoas estariam presentes.
Na última hora, um avião apresentou problemas insolúveis e foi necessário utilizar um Meteor(Gloster Meteor, esse o avião) recém recebido de uma revisão geral e que ainda estava pintado com o tradicional cromato de zinco verde-limão usado em aviação. Ele entraria na esquadrilha que iria fazer um ataque com foguetes em um alvo no meio do descampado.
E ninguém quis voar aquele avião tão pouco atraente.
Ninguém menos o preá Pedro Duncan. Novo na unidade, recém-formado Caçador em Fortaleza, disparado o melhor piloto da turma, ele topou na hora.
Assim, "ninguém vai ter dúvidas de quem acertou o alvo" brincou com os mais antigos.
E fez questão de avisar à esposa que estaria no avião verdinho.
Não deu outra. Para garantir o acerto, ele lançou mais perto, baixo. O solo enlameado fez com que uma nuvem de detritos se levantasse ao impacto do foguete no alvo. E ele passou no meio. Para cair em frente sem deixar qualquer dúvida de quem era. Foto na primeira página do Zero Hora.

-Recentemente, o Tiago Brant do Zona de Impacto do Sport TV, fez o curso de parapente com a gente e aproveitou para montar um programa da série "Rapadura".
Misturou o curso e o rally de asa do Chico com vôos da Esquadrilha da Fumaça e um vôo de acrobacia feito no interior de São Paulo em um avião civil.
Quando eu vi a montagem final do programa, fiquei horrorizado com uma das manobras acrobáticas feitas nesse vôo isolado. Um tunô descendente à baixa altura por trás de uma árvores que não deve ter terminado em catástrofe por muito pouco. E o Tiago a bordo, inocente(algumas semanas depois, parece que o mesmo piloto, voando com um ex-piloto da Esquadrilha da Fumaça, entrou voando pelo chão à dentro).

-E no vôo-livre, podemos citar o caso do nosso querido amigo Barão de Vendruz, na Praia do Pepino. Uma pessoa prudente, cautelosa e disciplinada que em presença do irmão que viera de Brasília, ultrapassou seus limites normais e acabou no rotor da Gávea com trágicas conseqüências.

Ah, sim, devemos mencionar também o recente acidente do Alpine fazendo manobras à baixa altura quando a asa quebrou.
E o que encontramos de comum nesses acidentes?
Desejo de mostrar habilidade e destemor para terceiros.
Provavelmente, nenhum deles teria ocorrido se não houvesse platéia.
O Duncan teria lançado seu foguete na altura normal, o piloto do avião acrobático não teria ultrapassado seus limites, o Barão não iria lá para perto da Cabeça do Imperador na Gávea e o Alpine muito menos faria exibição, estivesse a praia vazia.

É importante, mas muito importante, que todos nós tenhamos consciência dessa armadilha. O vôo exibicionista com platéia.
Principalmente, quando pessoas da nossa intimidade estão presentes.
Porque é nessas horas que a "bruxa" dá o bote. Ela está sempre à espreita, mas ataca mesmo é quando a situação é mais dramática. Quando pode gerar uma manchete do tipo "Explodiu na frente da família" ou coisa do gênero.
É por isso que eu não dou chance nessas horas. Pelo contrário, minhas besteiras, as fiz longe dos olhares de terceiros(nem sempre, mas aprendi a lição cedo). Mais ainda, dos que me são caros.
Foi depois de almoçarmos no Clube, ao chegarmos na área de vôo, que fui surpreendido pelo convite de um amigo, Caçador e ex-aluno, "para dar uma volta" na nova avioneta do Clube. O Mayr, um biplano acrobático capaz de sustentar 9g positivos e 5 negativos!
Pô, logo o Mayr! Um biplano!
Um aviãozinho que há muito eu queria voar. Que se pode entortar à vontade sem receio de que quebre em vôo.
Seria a primeira vez que eu voaria num biplano, coisa sonhada desde menino.
Não resisti. Dei uma subida, chequei as reações, fiz uns oito-preguiçosos, mas na hora de entortar, a luz acendeu e o alerta sonoro tocou.
Com a família assistindo, voando o avião pela primeira vez e depois do almoço, tive a certeza de que a bruxa estava de olho atento em mim.
Reduzi o motor, me "paguei " uma pane e fiz uma aproximação de 360 graus, bem ruinzinha até, e pousei. Os amigos indagaram "nem um loopinzinho?"
O que houve?
Prudência e maturidade, eu respondi acrescentando "mas, no duro mesmo, respeito à bruxa".
Eu a respeito e ela me tem respeitado. "De las aguas malas, me livro yo".

Todo esse papo veio à luz depois que o Sivuca me informou que um piloto com quatro meses de vôo aqui da área do Rio havia perguntado a ele como fazer wing-over.
Pois é gente, manobras acrobáticas de parapente são para gente que as pratica muito e muito. E para pilotos super-dotados, mesmo que as pratiquem menos.
Mas que ainda assim se arriscam mas sabem o que fazem e têm consciência do risco. Risco se assume assim. De modo calculado.
Risco sem cálculo é roleta russa.
Especialmente à baixa altura.
Não quer dizer que um piloto normal não possa executar esse tipo de manobra. Mas é preciso muito treino. De preferência nos SIV e sobre a água.
E os preás bem dotados, tenham paciência porque logo suas qualidades serão reconhecidas. Não há porque ter pressa. No vôo, experiência é vantagem entre pares normais.
A habilidade sempre suplantará a experiência e o preá de hoje manhã estará muito à frente da "velha águia" de hoje. Mas habilidade não pode prescindir da experiência porque ela ajuda a sobreviver.
É isso. Deixemos para São Conrado resolver os problemas das "aguas buenas" e evitemos entrar nas "aguas malas". Cabe a nós. A cada um de nós não dar chance à bruxa.
Com quatro meses de vôo, com toda a certeza, a bruxa vai estar particularmente à postos para interferir ao menor descuido. Mesmo sem platéia.
Tenhamos em mente isso.
E com platéia, ela sempre está de olho.