Termal pra Preá

Eu não lembro bem quando foi, mas já tem um tempão.

Eu batia papo com alguém pára-quedista, voador como nós, que me dizia como era difícil convencer os amigos dos prazeres do Vôo-Livre de Parapente. Porque invariavelmente a argumentação contrária que recebia era quase sempre a mesma:
- Parapente é igual ao pára-quedas depois que abre.
- A grande sensação é a queda-livre.
- O barato era dirigir o corpo e evoluir antes de abrir o pára-quedas.
- Este,  depois de aberto, não tinha mais graça.

E eu recordo haver sugerido contra-argumentar perguntando:
- Mas você consegue vencer a natureza e a sua lei mais implacável, a Gravidade, e ganhar altura em queda-livre?
- Você consegue ficar em queda-livre o tempo que desejar?
- Ou continuar no ar depois que o pára-quedas abre?
- Você consegue voar distâncias de pára-quedas?

Se não deu para convencer e conquistar muitos adeptos, pelo menos acho que isso serviu para resguardar um pouco a nossa vaidade ferida.
E foi lembrando desse lance que resolvi escrever algo para o principiante e para aquele que não voa, mas freqüenta o nosso meio.
O vôo-planado é capaz de ganhar altura desde que em presença de ar ascendente cuja razão de subida seja maior do que a razão de descida do nosso vetor.
Simples, não?
Basta que o nosso parapente ou a nossa asa, descendo, digamos 1 m/seg (um metro por segundo), voe em ar ascendente que suba mais do que isso.
Em uma situação em que o ar esteja subindo 2 m/seg , a nossa viatura alada irá subir a diferença, ou seja, ela estando numa massa de ar que sobe 2 m/seg e  descendo dentro dela, 1 m/seg, estará portanto, subindo 1 m/seg  em relação ao Planeta Terra enquanto nos mantivermos dentro do ar que sobe.

E que ar que sobe é este?
Bem, com objetivo puramente conceitual e no jargão do vôo-livre, podemos classificar este fenômeno(do ar subir) em duas categorias. A "termal" ou "térmica" e o "lift".

LIFT

O "lift"  é o efeito mecânico do ar impactar com o  terreno e infletir para cima. Não é essa exatamente a tradução correta mas é uma terminologia já consagrada no nosso meio e há que aceitá-la.
O nosso lift corresponde ao "soaring" da língua inglesa e ao  "vol de pente" do francês.
O lift é o vôo mais fácil de se fazer bastando atenção para não se deixar levar para trás da elevação pela ação do vento que terá sua velocidade aumentada no topo pelo efeito Venturi.
Convém, entretanto, que se esclareça que muitas vezes o piloto menos experiente acha que está fazendo lift, mas na verdade está subindo com o ar quente que acompanha colado os paredões de pedra quase verticais.
É o caso típico da Pedra da Gávea no Rio. Sobe-se no paredão por mais de 500 m, não por ação de lift mas por ação térmica. Ou por restituição(veremos a seguir o que vem a ser isso) da floresta em baixo nos fins de tarde. Uma ação que só se manifesta grudado na pedra.
Paredão vertical não gera lift. Pelo contrário, numa falésia vertical, uma vez se passe para baixo da borda, via de regra não se consegue mais recuperar a altura se formos depender de lift..
Um outro aspecto interessante de se saber também é que muitas vezes o lift nada mais é do que produto das correntes ascendentes de ar quente que sobem pelo relevo e se unem ao vento dominante.
Quando essas correntes sobem pela frente da decolagem e se juntam ao vento, tem-se a impressão de que o fenômeno é puro lift.
Quando o ar aquecido sobe pelo lado de trás da elevação, a sotavento, portanto, ele pode se unir ao vento de lift que sobe pela frente criando uma situação conhecida como convergência em que tudo sobe por ação conjunta. Da térmica e do vento.
Na verdade, salvo em elevações mais baixas e no litoral em presença de vento absolutamente laminar, a ascendência quase nunca será produto só do vento.
Normalmente haverá sempre essa ação conjunta vento/termal.

TERMAL

A termal é formada pelo ar aquecido em relação ao ambiente circundante. Mais quente, ele fica menos denso("mais leve") e sobe. É o efeito do "balão de São João".
Mas para que isso ocorra, é preciso que o resfriamento natural desse ar que sobe o mantenha sempre "mais quente" que o ar em volta. Quer dizer, enquanto ele for "mais leve" que o ar em volta, o ar quente da bolha termal vai continuar subindo.
Quando a temperatura da bolha e a do ar em volta se igualarem - e isso vai acontecer em alguma altitude - a termal se dissipa e acaba.
E nós, infelizmente, paramos de subir e começamos a descer pois, afinal, a Lei da Gravidade não foi revogada. Ela apenas é camuflada durante os bons momentos em que estamos dentro da termal.
Quando as condições atmosféricas são tais que isso ocorra - o ar da bolha quente se mantendo sempre mais quente que o ar em volta - diz-se que a atmosfera está INSTÁVEL. E é dia de festa para o vôo-livre.
Ao contrário, quando o ar em volta da bolha termal não se resfria tanto a medida que se sobe, logo as temperaturas da bolha e do ar em volta se igualam e não há mais ar ascendente. Diz-se que a atmosfera está ESTÁVEL. E o vôo-livre só fará vôo "prego".
Mas é importante que se tenha em mente que a termal não é um fluxo permanente de ar que sobe. Ela é cíclica. O ar se aquece no solo, forma uma bolha e, de tempos em tempos, essa bolha se desprende do solo e começa a subir. Por vezes, em dias muito especiais, e em locais especiais, os ciclos são tão constantes  e a intervalos tão pequenos que tem-se a impressão de
que ela é permanente.
Por ser também a bolha finita em dimensões verticais, há de chegar um momento em que mesmo dentro dela,  vamos acabar saindo por baixo.
Porque embora às vezes possa parecer que não, infelizmente,  estaremos sempre descendo dentro da termal.
Um bom modelo para se entender esse mecanismo é imaginar a termal como um elevador  enorme dentro do qual se solta um aviãozinho de papel.
O aviãozinho irá planar até chegar no piso do elevador e enquanto ele estiver planando, estará subindo em relação ao edifício desde, é claro, que o elevador suba mais rápido do que o aviãozinho desce.
Supondo que o piso do elevador seja aberto, quando ele sair por baixo do elevador, ele deixará de subir e passará a descer em relação ao prédio. É o mesmo que ocorre em relação à termal quando saímos por baixo dela.

E como encontrar essas bolhas, as termais?
Bem, com um pouco de conhecimento, não será difícil. A termal sempre será gerada em terreno que absorva calor. Terrenos de coloração mais escura que tenham em volta áreas que refletem calor e permanecem mais frias. Locais onde haja contraste de temperatura. Paredões de pedra, campos arados, campos circundados por vegetação mais densa, etc. E é claro, nuvens cumuliformes.
Normalmente as termais "residem" sempre nos mesmos locais uma vez que as fontes geradoras são fixas.
Mas se é uma vantagem se conhecer o local onde se voa, sabendo de onde brotam as termais residentes, o problema é saber  quando elas estão brotando. E saber a influência que o vento terá sobre elas.

Mas, uma vez encontrada a termal, como se manter dentro dela? Inicialmente, para se ter um aproveitamento eficiente, é preciso voar com um "vario"(variômetro) que nos dê indicação de subida. É possível, tendo-se uma boa experiência, até se voar uma termal sem o vario. Mas será muito mais difícil. Porque não teremos como buscar o melhor local do sistema, o seu
"miolo". Aquele em que se sobe melhor.
Além do que, a própria fisiologia do nosso labirinto nos enganará se não tivermos um referencial visual de altura. Voar uma termal colado no relevo não é muito difícil. Mas no "meião" de uma planície é complicado.
Por que? Porque se estivermos descendo forte e, de repente, começarmos a descer mais devagar, o nosso labirinto vai nos dar a sensação de que secomeçou a subir.
Da mesma forma, se estivermos subindo bem e começarmos a subir mais devagar, o labirinto nos transmitirá a sensação que passamos a descer.

Mas quando estivermos "garimpando" em busca de uma termal, o primeiro indício de sua proximidade é que subitamente a nossa razão de descida irá aumentar significativamente. Isto porque a natureza se mantém em equilíbrio e se tem ar quente subindo em algum lugar, em volta vai ter forçosamente ar frio descendo.
Mas como saber em que direção está a termal ? Bem, há que estar atento. Os urubus são um bom indício. Eles parece que farejam e vêm a térmicas e estão sempre  "enroscando" e subindo com elas. A vegetação também pode nos dar boas dicas. Sob a termal, tudo  fica muito agitado pois o ar em volta tende a preencher o "vazio" deixado pela bolha que se desprende criando um vento bem localizado. Em vôo, a gente vê umas árvores balançando muito e a poucos metros, nos arredores, tudo o mais parado. É fácil, inclusive, se verificar o deslocamento da termal pelo deslocamento dessa agitação das árvores. Não existindo vegetação, há que se ficar atento a outros indícios. Poeira subindo, detritos, fumaça, etc.
Mas o melhor mesmo é observar os outros e correr na direção de quem encontrou a térmica.
Mas imaginando que nós seguimos na direção certa, o que ocorrerá ao chegarmos na termal?
O vario, é claro, vai indicar uma reversão da descida para uma subida. E o velame reagirá a essa entrada na bolha de modo a nos dar algum indício do que fazer.
A bolha de ar ascendente não sobe igualmente em todos os seus setores. O normal é que o centro, o miolo, seja o lugar onde a ascendência é maior e o ideal é que nós pudéssemos nos transformar em um balão e com ele ficar estáticos bem no miolo. Mas como nós temos de nos deslocar para que haja sustentação, afinal, somos voadores mais pesados que o ar, o que se torna
necessário então é fazer um giro de curva, "enroscar", o mais próximo do miolo que seja possível. E claro, na menor razão de descida possível o que significa, voar lento e bem freiado - ângulo de ataque elevado.
Para isso, nós vamos fechando e abrindo a curva seguindo as indicações do vario até conseguirmos centrar girando bem apertado em volta do miolo. Mas não é tão fácil assim pois sendo a termal um sistema altamente dinâmico, deslocado, inclusive pelo vento, a centragem nela é um trabalho de permanente busca pela melhor razão de subida.

Mas quando se entra na termal, podemos estar fazendo isso bem no centro dela ou deslocados lateralmente.
Se entramos na bolha bem no centro, haverá uma indicação de subida no vario e uma tendência do velame recuar um pouco da vertical pois estaremos modificando radicalmente o ângulo de ataque. É importante que se comente esse fenômeno embora ele abranja um aspecto técnico que foge um pouco ao objetivo primário deste trabalho.
Uma conversa recente com um piloto que experimentou um incidente de vôo e não estava entendendo o que havia acontecido, nos fez optar, em prol da segurança, por esta breve explicação.
Até chegarmos à termal, digamos que o nosso ângulo de ataque seja, por exemplo, de 10 graus. Ou seja, o nosso ângulo Alfa formado entre a corda da asa e o fluxo de ar seja de 10 graus.
Ora, no exato momento em que há a transição de entrada na massa de ar ascendente, esse ângulo sofrerá um acréscimo abrupto para mais, pois o fluxo de ar estará vindo de baixo praticamente a 90 graus com o velame.
Poderá ocorrer então, dependendo da intensidade da ascendência, uma aproximação perigosa do ângulo de estol da asa. Às vezes, até um pre-estol.
Se nessa hora o piloto inadvertidamente freiar mais ainda o velame(foi o que o nosso amigo fez), uma situação crítica poderá ocorrer com o desinflar das pontas e a ocorrência de um princípio de entrada em "full estol".
Portanto, ao se entrar numa termal, deve-se estar pronto para aliviar o freio momentaneamente de forma a permitir que se entre na bolha térmica sem que o velame recue descontrolado. Logo, quase que de imediato, tendo penetrado a bolha e vencido esse impacto inicial, deve-se novamente atuar o freio pois o ângulo de ataque terá voltado ao normal. O cuidado deve existir na entrada, nunca freiando na hora em que se encontra o "muro"(ao se entrar numa termal muito forte, tem-se a impressão que se bateu num muro).
Mas frise-se, esse incidente não é algo normal de ocorrer e só acontecerá em condições de instabilidade muito fortes.
Feita essa digressão, vejamos o que ocorre quando se entra na termal deslocado lateralmente  da bolha.
Um dos lados do velame, aquele onde estiver a termal, vai receber mais ar ascendente que o outro e a tendência será  o parapente curvar para fora da termal. Nesse caso, deve-se iniciar a curva para o lado que levantou.
Mas como curvar?
Não se deve fazê-lo logo. Seja entrando no centro, seja na lateral, deve-se dar um retardo antes de curvar. Uma técnica bem simples é começar a curva quando o vario chegar na indicação máxima de subida e der indícios de decréscimo. Considerando o retardo que teremos entre o decidir curvar, a nossa ação e a resposta do nosso comando, deveremos estar numa posição razoável para começar a buscar o miolo.
Mas e quando se tem certeza de estar entrando bem no centro da bolha?
Bem, nesse caso, é bem mais provável que se obtenha um resultado melhor e mais imediato se fizermos uma curva de uns 45 graus para um lado e quase que em seguida, se iniciar a reversão do giro para o lado oposto.

Bem, vejamos o efeito do vento numa termal. Se ele for muito forte e a atividade térmica for branda, ocorre da bolha acabar se fragmentando toda. É aquela condição irritante, turbulenta,  que os pilotos denominam de "falhadinha" na qual não se consegue encontrar um miolo mais amplo e quando se encontra, ele logo desaparece.
Por sua vez, se a atividade térmica é mais intensa, a bolha pode se deslocar e se inclinar na direção do vento mas continuar compacta. Nesse caso, havendo interesse do piloto acompanhar o vento, basta procurar ovalisar a enroscada de modo a acompanhar a inclinação e o conseqüente deslocamento da termal.
No caso de se perder o "bonde" da térmica em presença de vento, a prática demonstra que se deve buscar um novo ciclo voando contra o vento. Se o timing der certo, vai-se acabar encontrando um novo ciclo subindo.

RESTITUIÇÃO / RESSURGÊNCIA

Esse é um fenômeno interessante. É a térmica da noite. Ou de fim de tarde.
Que ocorre quando se tem uma área que acumula calor muito lentamente durante o dia. E que, por conseqüência, também o perde muito lentamente quando anoitece. Ocorre então uma inversão das regras a que estamos acostumados.
Os locais geradores de térmica se resfriam rapidamente. E aqueles que durante o dia não geravam térmica por se aquecerem muito lentamente, continuam quentes por mais tempo. E aí desprendem aquelas térmicas amplas e suaves de fim de tarde. Ocorrem com muita freqüência sobre áreas de mata que têm à sua volta, terrenos que seriam fontes de termais durante o dia.

Bem, é isso aí. Preá ou leigo, seja qual for o seu caso, acredito que algo de útil possa ser assimilado do que escrevemos. Agora, é praticar.
Aproveite.