Reminiscências
A última vez em que
eu participei de uma etapa de campeonato de Parapente foi em 1995
em Andradas.
Depois, acho que só apareci em 98, quando estive dando apoio ao
Ranimiro e ao Virgolino em Valadares. E andei correndo atrás da
Gladis também. Daí, nunca mais.
Este ano, durante o
Carnaval, excepcionalmente, resolvi aparecer.
Não fui pra voar, mas apenas para entregar um Simba que o
Guilherme Cajú de São Paulo me havia solicitado.
Mas que surpresa agradável !
A Go Up realmente assumiu definitivamente o
espaço da organização de competições ! E com que eficiência
!
Tudo limpo, arrumado, previsto e organizado.
Desculpe Chico, mas tem o toque feminino naquela organização
toda.
A você, os cumprimentos por haver escolhido a Mônica. Ou por
ter sido escolhido por ela! Por trás de uma grande realização,
tem sempre uma grande mulher.
Mas, durante os dois dias que estive por lá, não pude deixar comparar e de relembrar acontecimentos pitorescos do passado.
De como nós, ingenuamente em 91, fizemos uma etapa do campeonato no mês de maio se não estou enganado e uma das provas foi ganha por um piloto que com um Flash da UP, pousou no posto da Polícia Rodoviária, aquele a não mais de cinco quilômentros da decolagem. Prova de L/D pura pois o Flash, recém lançado pelo Gin Seok, com seu planeio de 7 pontos, era o máximo que existia na época. Os outros, ficaram todos antes.
Lembrei também do
Internacional de XC em 93. Foi a primeira reunião pra valer e a
equipe francesa veio completa para treinar e fazer a seletiva
para o Mundial. Era início de março e não esqueço que estava
tudo seco, com céu azul e sem uma nuvem. Mas bombando tudo. Era
só escolher o lugar certo.
Chegamos na rampa, direto do Rio, eu, Bruno Menescal e Toninho
Malvadeza(onde andará esta figura?). Sim, lembro também que
estávamos com reserva no Panorama e ao passarmos pelo Ibituruna
Park vimos que ele estava sendo inaugurado. Paramos e indagamos
preço. Acabamos ficando lá pelo preço do Panorama. Fomos
pioneiros !
Mas chegamos na rampa e vimos o bando de franceses(lembro do
Xavier Remond, Patrick Berod, Didier Exiga, Ali Gali e Nanou
Berger) decolando e partindo para o bracinho e dali para a Santa
– isso era, para nós na época, uma absoluta uma temeridade
pois todos sabíamos da capotada de asa do Alpine e também da
"vaca" que um francês havia tomado sobre a Santa
voando um Prestige em 91 a que todos assistimos.
Bem, olhamos um pra cara do outro e dissemos, se eles vão, nós
também iremos.
E lá fomos. Eu de Hilite III, o Bruno de Omega I e o Toninho de
Astra.
O vento era norte e eu saí para o sul sozinho depois de subir
até dois mil em cima do pico.
O Bruno acompanhou os franceses que resolveram seguir para o
norte e treinar contra o vento.
O Toninho, não lembro.
Pousei depois de de Engenheiro Caldas, onde, durante o campeonato
agora, tinha até jacaré e hipopótamo de tanta água e naquela
época era um descampado seco. O Bruno junto com os franceses
pousou 20 km ao norte. Na verdade, não fizemos nada demais pois
o Guinho Haegler já havia feito um vôo até Dom Cavati de Voodoo
duas semanas antes. Mas o Guinho afinal, já era fera de asa e
conhecia sobejamente Valadares.
Eu sei que pousei e a primeira coisa que fiz na cidade foi
revelar o meu filme.
No dia seguinte, o meu irmão chegou de avião e eu o fui buscar
no aeroporto. Tão logo ele entrou no carro, lhe dei uma foto de
Engenheiro Caldas tirada a quinhento metros de altura dizendo:
"uma lembrança pra você que não conhece o lugar do
alto".
Passados uns cinco
dias ele me deu o troco: "pra você, que nunca viu o trevo
de Iapu do alto, bota no seu álbum".
Ele havia voado 75 km com um Starlite que tinha um L/D de seis
pontos.
O gozado é que depois, ele já vou de Supra, de Xtra, de Futura,
de Bagheera e de Simba e eu acho que nunca mais conseguiu fazer
um vôo daqueles.
Mas é verdade que já passou inúmeras vezes sobre Engenheiro
Caldas vomitando !
A ponto, dizem, de já existir há muito por lá na Prefeitura,
um diploma de "Persona Non Grata " da cidade a lhe ser
entregue algum dia.
Mas não é verdade sobre não ter feito um vôo bom depois do
descrito.
O Ruy já fez um vôo famoso depois daquele. Ele chegou em
Valadares de ônibus, foi pra rampa, decolou, voou 90 km, voltou
pra cidade, entrou no ônibus e retornou ao Rio de ego inchado.
Pois é, hoje qualquer preá vai a Engenheiro Caldas em menos de
uma hora - o Laranja, na viagem de volta, me contou que há
tempos atrás chegou lá a duras penas depois de três horas de
vôo e ao seu lado pousou um novato local que fez o percurso em
quarenta minutos!
É a evolução!
Mas ficou a saudade do Trop Sucos que fechou.
Pô, o lugar tinha sido QG de um monte de campeonatos no passado
e como disse a Márcia Poppe, a nossa charmosa voadora
"uruguaia": "o lugar deveria ter sido tombado.
Aquele refresco de côco, a aveia com banana e o sanduíche de
queijo/banana eram insuperáveis".
E ficou também saudades da comida da Casa da Tia. Que preparava
um jantar delicioso pra gente na subidinha atrás da Feira da Paz
– que naquele tempo, era apenas o "o pouso de barro
vermelho da margem do rio".
Mas eu frequentei pouco a casa da Tia. Fui levado pelo pessoal de
asa que já frequentava o lugar desde muito.
Logo depois, ela passou a se dedicar a banquetes e festas e nos
deixou.
Mas o que vi de mais
importante em Valadares é que, conseqüência do trabalho
profissional da Go Up, a Prefeitura parece estar realmente
empenhada em apoiar o Vôo-Livre.
Quem sabe a turma mais nova não chegará a ver um teleférico ou
coisa que o valha chegando até lá em cima.
É uma questão de tempo. Quem o tiver sobrando, certamente
verá.
ALEGRIA DE TUBARÃO
Outro dia eu estive fazendo uma visita um velho amigo, Piloto de Caça e compadre. Companheiro desde os tempos de colégio, de loucuras, portanto, sobejamente conhecidas por mim(uma vez voando de Fairchild PT-19 com ele – um treinador muito antigo de nacele aberta em tandem no qual aprendemos a voar - eu na frente e ele na traseira, ele queria a todo custo que trocássemos de posição em vôo – detalhe: haveria que sair e ficar em pé na asa pra fazer essa troca e eu lembro haver gritado que ele poderia voltar pro pouso no meu colo mas que eu não ia sair de onde estava !!).
Pois bem, depois de muito papo, ele
me convidou pra fazer um vôo no novo ultra-leve dele, uma
avioneta italiana.
Como eu já havia voado um igual com o Phil Haegler –
fizemos até umas acrobacias – pensei comigo que havia
escapado ao lhe dizer que já conhecia o avião.
Mas não houve jeito.
"Esse meu é um modelo novo que recolhe o trem, além do que, eu tenho de testar a hélice tri-pá nova que coloquei. Vamo lá!".
Eu já tinha até esquecido e depois de dar aula de manhã cedo e dar uma voada antes do almoço, já pronto pra dar uma boa cochilada, eis que me toca o telefone e não tive como escapar.
Pra quem não conhece nada de
avião, eu explico.
Avião é homologado por normas muito rígidas, o FAR 23(avião
pequeno) ou 25(avião grande) e seus equivalentes brasileiros
RBHA 23 e 25.
Quer dizer, quando você entra num avião homologado, você sabe
que o que está escrito no manual é verdade.
Ultra-leve não é homologado. É aeronave experimental. Por mais
bonitinho, performante(e eles são muito pois são projetos
aerodinâmicos muito bons) e parecido com um avião, e a avioneta
em questão é uma beleza, nada garante que a resistência
estrutural e que as características aerodinâmicas sejam
confiáveis. Voa-se por conta e risco.
Por isso, eu não simpatizo muito
com ultra-leve.
Exceto um biplano russo acrobático, o Mayr, que é impossível
de quebrar em vôo. Ele suporta 9 G positivos e 5 negativos.
Mas é verdade que voei com o do
Phil. Mas também foi depois de dele muito me convidar. Ademais,
ele estava doido pra saber se a maquineta dele, assegurada como
capaz de suportar 4 G, era passível de fazer acrobacia.
Embora eu o conheça e tivesse certeza que ele não iria inventar
de fazê-lo sozinho - eu já havia voado de trike com ele antes e
ele de T-6 comigo - me passou pela cabeça que algum desses
pilotos temerários que habitam o planeta talvez pudesse tentar
convencê-lo de que não tinha problema e até se propor a
demonstar, de modo então que resolvi voar com ele e fazer a
coisa direito. Quer dizer, direito não porque o avião não era
aprovado pelo fabricante pra fazer acrobacia mas, sabendo, deu
pra fazer uns tunôs barril sem passar de 3 G. Mas eu lhe disse
que não fizesse, nem deixasse ninguem fazer porque a margem era
muito pequena.
Mas acabou que chegamos no clube e
a avioneta já estava pronta.
Previnido, eu já havia levado meu capacete e ia entrando com ele
no avião , quando o meu compadre me disse "precisa não, a
gente voa só de fone aqui".
Tudo bem, amigo é solidário até no traumatismo craniano e lá
fui eu sem capacete.
Ele me deu a decolagem e nos mandamos em direção a Angra dos
Reis.
Trem recolhido, regime de subida, já estávamos entrando na
baixada de Guaratiba quando a Torre Santa Cruz nos mandou seguir
pelo Corredor Delta sobre o mar e nos negou o sobrevôo da Base.
Putz, pensei eu, nós dois servimos ali, moramos ali, vivemos ali
anos seguidos, voamos no Grupo de Caça, e nos é negado o
sobrevôo da Base.
Coisas da vida!
O meu compadre aquiesceu e lá
fomos nós para a malfadada "rota tubarão contente".
Sim, porque esse Corredor Delta corre paralelo ao litoral, uns
dois quilômetros mar a dentro em frente aos trinta e cinco da
Restinga da Marambaia.
Cacilda, e eu pesquei paca na Restinga pra saber como tem
tubarão por lá – uma vez, sobrevoando a praia indo para o
estande de tiro, avistei um lençol de tubarão martelo que, eu
juro, tinha mais de mil !!
Nessa altura do jogo eu já tinha convencido ele a ir só até a
Ilha Grande e voltar. Foi quando ele se tocou que a velocidade
deveria estar acima de 200 km/h com o trem recolhido e estava em
140(eu estava pilotando mas nem tava aí pois não conhecia o
avião).
Só existe uma razão pra isso acontecer num avião. Tem algum
arrasto brutal atrapalhando.
No caso, era a bequilha que não tinha recolhido direito e estava
meio pra fora.
Foi aí que eu soube que o sistema funciona com um compressor de
ar elétrico desses de encher pneu de carro. E ele havia pifado e
o reservatório de ar estava quase vazio - essa é uma das mil
diferenças de um avião homologado para um ultra-leve. Nesse
usa-se material comprado na esquina.
Já que o trem não recolhia, tentou–se baixá-lo. Não
baixava!
Imediatamente eu pensei em duas coisas: "ôba, não vamos
mais pra "tubrão contente" mas em compensação, se
essa bosta não baixar, eu estou sem capacete !".
Fizemos tudo o que manda o
figurino e a experiência. Puxar G, derrapagens, descordenação,
G negativo, etc, etc.
Por fim, como já dizam os filósofos gregos "quando tudo o
mais falhar, leia o manual", o meu compadre optou pelo
procedimento de emergência para o caso – nem lembro mais,
mas parece que havia uma garrafa de ar comprimido para o
baixamento em emergência que ele estava relutando em usar e
deixando pra cartada final.
A preocupação dele era que ia quebrar a hélice novinha se
tivéssemos de pousar sem trem e a minha, a de quebrar a cara por
não respeitar a Lei de Murphy e voar sem capacete.
Quer dizer, preocupação mesmo, não chegou a haver porque a
gente ia botar aquela avioneta no chão a uns 40 km/h e ele até
pegou o celular e deu uma bronca no representante: "p....,
vou quebrar a minha hélice por causa dessa droga desse
compressor de ar".
E eu ainda comentei: "putz, com todo esse combustível nós
vamos é ficar umas quatro horas zanzando por aqui até podermos
quebrar a tua hélice".
Mas acabou tudo bem. O trem baixou e nós pousamos.
Depois, tomando uma cerveja, é
que me lembrei de haver examinado na Base Aérea de Recife já se
vão uns bons anos o trike de um gringo que atravessou o
Atlântico Sul.
E lembrei do Nader também, que foi a Noronha num ultra-leve
igual!
Putz, vão gostar de dar chance assim na China !