O Saint-Exupery do Vale do Paraíba

 

Já nem lembro direito, mas deve ter sido por volta de 98 que o Frigini me procurou para fazer o curso. Era o quarto ou quinto Piloto de Caça a se interessar pelo parapente. O meu filho Dário havia sido o primeiro, logo depois um amigão dele, o Ricardo Garcia, que dias depois de terminar o curso nas férias de 90/91, viria a perder a vida de Tucano na Esquadrilha da Fumaça, e creio que o Hélio Batata foram os únicos.
Tenho registro de um outro, o Almeida, piloto de
F5 e Mirage, mas esse não chegou a terminar.

O curioso é que quando eu comecei no esporte, ainda muito ligado às coisas da Caça e aos pilotos da época, quase todos meus ex-alunos, pensei que o pano-de-chão seria uma coqueluche entre eles. Por algum motivo, não foi.
Mas o interessante é que se poucos Pilotos de Caça se interessaram pelo vôo livre, a recíproca não está sendo verdadeira. Alguns pilotos formados por mim talvez venham a se tornar Pilotos de Caça.

Eu explico: dentre os inúmeros Alunos do Colégio Naval e Aspirantes da Escola Naval que formei no passado, dois, agora oficiais, foram selecionados pela Marinha para fazerem o curso de pilotagem na Academia da Força Aérea. O Felipe e o Henrique. Dois não. Três, porque o Rodrigo que agora só voa de asa, também foi e aguarda vaga. O Felipe, para o povo mais antigo do Rio, é aquele guri de treze anos que todo mundo chamava de Flipper. Terminou o curso e mal teve oportunidade de voar. Foi obrigado a aguardar cinco anos para voltar a voar depois da proibição de se conceder carteira a menor de idade.
Agora ambos vão passar um ano em Pirassunga na AFA. E se tiverem  êxito, serão selecionados para o Curso de Caça em Natal. Passando no crivo, no futuro estarão operando os A-4 da Marinha a bordo do navio aeródromo São Paulo. Sucesso a ambos. Que não cabem de alegria. Principalmente porque vão estar, durante um ano, do lado de Andradas. 

Mas voltando ao Frigini, ele começou e terminou o curso muito rapidamente e com fácil adaptação - eu já havia sido informado pelo Dário, que havia sido seu instrutor no Curso de Caça, de suas habilidades como piloto. Tão fácil que, no sétimo vôo em dia de farofa no Pepino, engatou numa termal a meio caminho da praia e botou uns trezentos metros acima da rampa.

Quando eu o vi enroscando e centrando na térmica com incrível destreza é que me deu o estalo:

Na Academia da Força Aérea existe um Clube de Planadores. É uma forma de se dar um lazer ao jovem nos FDS de modo a lhe esfriar a cabeça das atividades de rotina e um recurso para evitar que eles se mandem para São Paulo porquanto Pirassununga, digamos, não oferece muitos atrativos.
Quando ele pousou, a primeira coisa que lhe perguntei foi se ele era piloto de planador. Era. E Instrutor
!

Mas ele não era só isso. Depois de servir algum tempo em Unidade Operacional de Caça, havia realizado o Curso de Piloto de Ensaio (Piloto de Provas, no jargão mais popular) e está lotado no CTA em São José dos Campos sendo voador de Keara e assíduo ir freqüentador de Santa Rita do Sapucaí.
Só agora, no entanto, é que fui descobrir as habilidades literárias do cara  pois, recentemente, ele editou um livreto que distribuiu aos amigos, com suas incursões de contador de estórias.
E pra variar, ele é bom nisso também. E escreve bonito, descreve tudo no detalhe sem se tornar enfadonho e conta estórias de aviador.

Autorizado por ele, vou transcrever uma delas: 

Presente Gelado

 Não era uma manobra complicada. Era apenas fora dos padrões para os aviões normais. Na frente, era só o azul do céu. Os relógios do painel giravam como loucos, ou estavam emperrados nos batentes.
Cruzando quinze mil pés, eu não me contive e abandonei a concentração nos parâmetros. Girei o pescoço sobre o ombro esquerdo e vi terra a quase noventa graus. Olhei finalmente para trás, observei as duas empenagens
verticais e a pista que se miniaturizava lá atrás do amarelo palha do deserto.

Não era sonho, apesar do "dejá vu" da cena tantas vezes sonhada. O F-15 obedecia às minhas mãos: manche-nariz, manete-motores. As pós-combustões estavam abertas e a Terra se afastava naquela tarde de outubro.

Lembro daquele vôo como um dos exemplos de como a natureza humana é complicada. Completei trinta e um anos na véspera. Ao invés de família, amigos, sorrisos e bolo de chocolate, o silêncio do hotel da Base.
Toda tripulação, pilotos e engenheiros muito concentrados, sisudos, totalmente alertas para o que se aproximava nos dias seguintes. Mas era meu aniversário! Eu me sentia um moleque olhando para o próprio umbigo. Queria um pouco de atenção para mim, para o meu sonho que estava  prestes a se realizar.

Estávamos em Edwards, templo de quase tudo de importante que se fez na aviação nos últimos cinqüenta anos. No dia seguinte, eu iria estar supersônico alguns quilômetros acima com um monstro de alumínio e aço de milhões de dólares nas mãos. Infelizmente não é assim que as coisas funcionam entre pilotos de caça.
Eu sabia muito bem que tinha que cumprir meu papel e esquecer as emoções.
Precisão, disciplina, concentração estas eram as palavras que contavam naquele momento. Eram o caminho para o talento de voar e as horas de estudo escoarem do jeito correto na hora certa.

O dia seguinte amanheceu logo, mas meu mau humor continuava. Como todos estavam apreensivos, isso nem foi notado. Logo, logo, já tinha um americano de meia-idade na minha frente, explicando o que fazer. Eu me sentia como o filho bastardo da humanidade defronte das oportunidades que o cara tinha podido desfrutar. Mas, enfim, as mulheres do Brasil são muito mais bonitas e o sol brilha mais dias por ano.

Qualquer desculpa serviu por muito pouco tempo, pois o Stephen conduziu o bate-papo com tal segurança, que parecia que iríamos taxiar um carrinho de supermercado. E antes que eu tivesse qualquer dúvida sobre o que iria acontecer, foi logo me avisando que, lá de trás, ele tinha muito pouca ação sobre os sistemas do avião. Assim, eu tinha que me virar para cumprir o que combináramos e voltar com a "águia" inteira de volta para a casa.

As horas que anteciparam o vôo passaram num instante. Cada segundo foi investido em adquirir informação útil para planejar um vôo de ensaio, não um passeio sobre o deserto de Mojave. Como cada momento era precioso, nada poderia ser desperdiçado: nenhuma curva, nenhum pé de altura, nem um nó de velocidade.

Repassei o meu roteiro com o instrutor e seguimos para o avião. A tal hora da verdade: minha habilidade, meu estudo, meu inglês teriam que funcionar sem perdas na velocidade daquele cavalo puro-sangue. Eu, no meu mundinho à parte, logo troquei estes pensamentos mais nobres pela franqueza de uma fotografia. Está certo que um dia no futuro vão encarar o F-15 como olhamos um “opalão” hoje em dia. Mas, naquele momento, o tal retrato significava a eternidade para mim. Duas poses, duas chapas e eu estava sentado dentro da máquina.

Hora do show. As dúvidas se dissiparam em um sorriso de confiança: tudo era maravilhosamente familiar naquela cabine. Tem horas que até a gente acredita naquelas lendas de nascer para fazer determinada coisa. Uma voz saía meio distorcida em meus fones, mas rapidamente estaríamos taxiando pelos pátios imensos. O "bichão" era rápido até no chão, porém dócil às minhas orientações.

Logo nos posicionamos para decolar, as manetes avançadas. Os freios se soltaram e aquela costumeira pressão contra o assento me deixou feliz: no ar, tudo flui mais fácil. E foi mesmo. A facilidade com que se pilota a "garça" permite antecipar cada passo do vôo. Primeiro alimentei a fera com velocidade. Avião de caça gosta de voar acima de trezentos nós. E eu adoro as alturas. Então mandei setenta graus de trajetória ascendente estabilizada até trinta mil pés. Coisa de dois minutos para trazer a felicidade às partes envolvidas.

Na hora seguinte, eu vi o deserto nas mais exóticas posições. Houve ocasião em que inclusive paramos e andamos de ré. Foi por breves segundos, é lógico. Logo o nariz despencou para o centro do Mojave faminto de velocidade. Minha caneta corria rápida, anotando os parâmetros mais importantes, enquanto os meus olhos ansiavam pela próxima manobra. Num dado momento, as folhas do planejamento se esgotaram, o combustível ficou escasso e seguimos para os pousos. Os toques foram exatamente como me avisaram. Prestei bastante atenção, pois nas três vezes o giro das rodas é que denunciou o contato com o concreto. Pode até haver avião mais fácil de pousar, mas tocar macio como o F-15 não existe. A adrenalina baixou bem mais tarde; quando repassei as notas para o relatório escrito. Havia feito coisas fantásticas naquela tarde, mas tudo agora se resumia a graus, números, opiniões abalizadas. O presente de aniversário fora maravilhoso: amplo, farto, mas gelado. Todos tiveram experiências semelhantes naqueles dias, mas nada de extraordinário transparecia.

As más línguas estavam certas: essa raça de pilotos de caça é ruim mesmo. Éramos realmente frios e calculistas. Mesmo os feitos mais extraordinários da aeronáutica não mereceram, socos no ar, abraços acalorados e porres homéricos.

De minha parte, tive um retorno de mau-humor.

Meu aniversário, oras!