Homologação de Parapente
Eu acredito que não há exagero ao se afirmar que uma das características mais raras de encontrar no brasileiro seja o hábito de estudar e se aprofundar na teoria de qualquer assunto. E nós voadores não somos exceção. Normalmente, não queremos saber de teoria. Ainda mais, quando se é obrigado a estudá-la para fazer prova.
Daí porque o MAPIL (Manual do
Piloto), elaborado com tanta preocupação de simplificar a
transmissão de conhecimentos, seja manuseado até se fazer essa
prova inicial de piloto e depois, relegado ao esquecimento, nunca
mais aberto.
Obviamente, existem as exceções e em todo local de vôo se
encontra aquele tipo de piloto que gosta de saber a razão das
coisas. Mas esses, de um modo geral, não são tão profícuos ao
esporte quanto poderiam ser, ou porque guardam o que sabem para
si, sem preocupação de disseminar o seu
conhecimento(normalmente porque a galera não lhes é receptiva),
ou porque, tendo esse conhecimento, usam-no para transmitir aos
menos experientes informações menos fidedignas.
E, é claro, existe ainda aquele terceiro tipo de indivíduo que,
mesmo sem saber nada direito, procura dar a impressão de ser um expert
chutando muito, enrolando e só criando confusão.
Ao atender o pedido de alguns
companheiros para escrever este artigo, me propus, primeiro, a
trazer informações para quem não as tem, lhes indicando onde
buscá-las. Em especial aos voadores de longe.
Em segundo lugar, a concitar aqueles que são bem informados e
têm ideais de melhorar o nível dos praticantes do esporte, a
serem mais atuantes ajudando a difundir conhecimento.
E por último, alertar o segmento menos experiente do nosso
universo de voadores, sobre a existência dos dois tipos já
mencionados que só fazem aprontar confusão ao disseminarem
desinformação. O que sabe e é mal intencionado e o que não
sabe e tira onda.
Eu começaria dizendo que tudo o que está escrito neste artigo foi extraído do Cap. V do MAPIL, Homologação, elaborado para ser eventualmente consultado, afim de tirar uma dúvida ou outra, e não para ser sabido na ponta da lingua ou decorado.
Atualmente existem dois sistemas de homologação de parapente. Um de aceitação geral na Europa e o outro mais restrito à Alemanha e Áustria.
O primeiro é aquele que teve origem na França quando foi criada a Associação de Construtores e que hoje é adotado como norma pelo CEN(Comissão Européia de Normas, não tenho muita certeza do significado da sigla), existindo dois países onde praticamente toda essa homologação é feita: França e Suiça.
As etiquetas dos parapentes
homologados na França ostentam a sigla ACPUL/AFNOR(Association
de Contructeurs de Parapente Ultra Ligier/ Association Française
de Normes) e as da Suiça, a sigla ACPUL/SHV(SHV é a
associação suiça). As duas fichas, no mais, são absolutamente
iguais.
Tanto um país quanto outro, utilizam os serviços contratados de
duas empresas constituídas por pilotos de teste. Uma é a
Aerotests e a outra, a Air Turquoise que se encarregam de toda a
homologação.
O sistema ACPUL vem sendo
modificado e aperfeiçoado, desde a sua criação nos fins da
década de 80, até se chegar às normas atuais que classificam
um parapente em quatro categorias(Duplo, Standard, Performance e
Competition visando o tipo de piloto que o irá voar: vôo duplo,
pouco experiente, com alguma experiência ou muito experiente) em
função do desempenho em 17 manobras de teste.
Na maioria dessas manobras, o parapente é induzido a entrar em
situações anormais e seu comando liberado. Dependendo do
comportamento durante essa recuperação, o parapente será
enquadrado em uma ou outra categoria.
Mister se faz, no entanto, não confundir Homologação de Parapente com a sua classe.
Por não existir uma forma padronizada de se designar um parapente, cada fabricante o faz a seu jeito e as denominações mais encontradas são: "escola", "intermediário-saída-de-escola", "intermediário-de-baixa", "intermediário-de-alta", "intermediário", "sport", "serial", "competição", "alta-performance", etc. Isso nada tem a ver com homologação.
De uma forma simplificada no sistema CEN/AFNOR (para saber mais, consulte o MAPIL, lá está tudo explicado nos mínimos detalhes):
- parapente Standard, submetido às 17 manobras, sai sozinho de todas(maneira de falar porque há quesitos em que o parapente não tem de sair de nada, decolagem, por exemplo).
- parapente Performance, submetido às 17 manobras, não sai sozinho, imediatamente, de todas, precisando de mais tempo para sair, da intervenção do piloto em alguma(s) ou tem comportamento menos estável em alguma saída.
- parapente Competition só é testado em 12 manobras e tem limites de tolerância bem maiores de instabilidade do que o Performance. Obviamente é um parapente mais delicado de pilotar em condições de turbulência e mais complicado de recuperar em situações de perda de contrôle, não devendo ser voado por quem não tem experiência.
Portanto, não há nada que
impeça que um parapente de altíssima performance seja
homologado Standard e possa ser voado por um piloto pouco
experiente. Essa é a meta de todo fabricante e aquele que
conseguir isso será consagrado. Atualmente estamos vendo
exemplos disso. O Sinergy da Sol é um saída-de-escola homologado
Standard com um L/D superior a 8. E o Keara da APCO é DHV 2 com
L/D 9.
Em 1989 o melhor parapente de competição tinha 6 de L/D e tinha
homolgação Nível 3 !
Vejamos agora a homologação do
DHV (sigla da associação alemã). Esse sistema é tão antigo
quanto o francês, mas tem características bastante próprias.
Os parapentes são homologados em 5 categorias, podendo cada
categoria ter uma letra específica: E, G, GH, GX, -, Y e S. Os
parâmetros de homologação são um pouco subjetivos, cabendo ao
piloto de ensaio definir a classificação do parapente.
Esses requisitos, por sua vez, não são de fácil compreensão
do grande público, pois são muito extensos e de extrema
prolixidade.
De uma forma bastante simplificada, os níveis são assim definidos:
- Nível 1 perdoa erros e omissões do piloto
- Nível 1-2 tem características cordatas
- Nível 2 é exigente e se destina a pilotos que voem regularmente
- Nível 2-3 é passível de reações violentas a erros de pilotagem
- Nível 3 é mais exigente que o 2-3
A letra E define o parapente que
precisa de alguma técnica especial para ser voado com
segurança, podendo-se citar, como exemplo clássico, o antigo
Kestrel da Pro Design que era categoria 3E por ter uma tendência
a entrar em vrille(curva negativa) e sair parachutando , às
vezes, precisando da interferência do piloto para recuperar.
As letras G, GH, GX, -, Y e S dizem respeito à requisitos de
selete.
Na Alemanha, até a consolidação da União Européia, não se
aceitava vôo de parapente que não fosse homologado DHV.
Posteriormente essa restrição foi suspensa, mas foram mantidos
inúmeros óbices indiretos tais como aval para seguros de
saúde, restrições de sítios de vôo, etc.
Com a pressão dos demais países, essas restrições foram
atenuadas, mas a DHV não concordou em padronizar o seu sistema
com o europeu, existindo uma queda-de braço entre a Alemanha e
os outros países sobre o assunto. O mercado alemão, ademais,
continua fiel ao sistema DHV, não aceitando muito bem e
desprezando equipamento com a homologação européia.
É importante também saber que o
parapente com homologação DHV só ostentará o selo de
homologação(gutsiegel) se for adquirido no mercado
alemão/austríaco. Essa é a garantia legal nesses países de
que ele está conforme o projeto original homologado.
Supostamente, em 2000 deveria ter entrado em vigor um sistema
único europeu, produto de anos de discussões tentando uniformizar
os critérios DHV/CEN, mas parece que o assunto foi para a
geladeira.
Para nós voadores destes pagos, o importante é saber que não há nada no sistema alemão que seja melhor ou pior que do que o CEN/ACPUL adotado no resto da Europa.
É importante apenas se saber que,
enquanto o DHV, ao que parece a quem analisa seus critérios, se
preocupa mais em prevenir perdas de controle, valorizando,
portanto, a resistência a situações anormais, inclusive
estabelecendo força para atuar e comprimento do curso dos
freios, comportamento em colapso acelerado, tendência a negativa
quando se força curva, etc, o CEN/ACPUL se preocupa mais com a
saída espontânea das perdas de controle sem muita preocupação
com a resistência a entrar nessas situações.
Isso faz com que os projetistas introduzam pequenas modificações
para homologar um parapente em um sistema ou no outro, sendo
essas modificações, normalmente imperceptíveis ao público.
Convém anotar ainda que quem
homologa parapente no DHV e não é fabricante alemão, o faz
para ter melhor aceitação no mercado de lá que é bastante
expressivo.
Portanto, quando alguem insinuar que um parapente é melhor que o
outro, ou mais seguro, porque é homologado em um ou outro
sistema, desconfie. É enrolação. Ou então ignorância
erudita. Se alguém, por exemplo, lhe disser que tal parapente
não é homologado no DHV e por isso tem restrições, comece lhe
pedindo para explicar como é a homologação do DHV. Muito
provavelmente ele não saberá lhe responder.
Existem até casos de parapentes que são melhor homologados num sistema que no outro e vice-versa. Só para citar um, o Sierra 25 da APCO é DHV 1-2 na DHV e Performance no sistema CEN/AFNOR.
Para finalizar. Se:
- Você voa um DHV 1, saiba que ele é incrivelmente resistente às besteiras que você aprontar, mas não exagere porque tudo tem limite.
- Você voa um CEN / AFNOR Standard, ele vai sair sozinho de todas as roubadas previsíveis na homologação, é só não atrapalhar, mas não relaxe porque nem tudo é previsível.
- Você voa um parapente de Homologação ACPUL Performance / DHV 2, procure saber onde ele foi penalizado, consultando a ficha de homologação que resume o comportamento nas diferentes manobras.
Depois, dê uma olhada no Cap. V
do MAPIL (no caso CEN/AFNOR), só para saber qual é a
restrição, entendê-la melhor e verificar onde você está
pisando.
Se a homologação for Competition, aí é bom você realmente
saber que manobras o paraca sequer foi obrigado a fazer para ser
homologado.
Em alguns casos, quando se tentou obter homologação Performance
sem sucesso, o comportamento nas 17 manobras estará descrito.
Mesmo naquelas em que tenha havido reprovação.
Quando, entretanto, o fabricante apresentar o parapente, já de
antemão, para homologação Competition, aí não há como saber
o comportamento nas manobras em que ele está dispensado de ser
avaliado.
E não caia na conversa de que tal parapente "é DHV 3 mas só em uma manobra, no resto é 2 / 2-3". Uma corrente é tão fraca quanto o mais fraco de seus elos. Um parapente DHV 3 é DHV 3 e pronto. Do mesmo modo que um Competition é Competition. Saber onde ele é pior e foi penalizado é bom. Mas não deve servir de desculpa, nem justificativa, para se voar na "turma de cima" achando que se está correndo entre pangarés.
Em qualquer dos casos, você voará com muito mais segurança se souber desses detalhes. Afinal, é o seu boneco que vai estar pendurado nas linhas.