Face à aridez mental ante o que abordar na coluna deste número, resolvi garimpar e dar uma olhada nos meus arquivos e encontrei a mensagem abaixo enviada à Lista Parapente BR em 1998.
To: Parapente BR <Parapente-BR@listas2.conectiva.com.br>
Subject: Re: [paraca] Comportamento / Atitudes
From: Paulo Pinto <ppinto@gaveasky.com.br>
Date: Mon, 08 Mar 1999 11:58:11 -0300
Silvio Ambrosini (Sivuca) wrote:
Um piloto arborizou 3(três)vezes em 3(três!) tentativas sucessivas de decolagem.
É muito fácil colocar alguém para voar. Em uma hora de treinamento já
dá pra enrolar um trouxa e colocá-lo no topo de uma montanha pra inflar
um paraglider, empurrar o cara, lá embaixo teleguiando o fulano pelo
rádio até seu "pouso seguro". Depois e só apertar bem a mão dele e
dizer: "Parabéns, você terminou seu curso !".
Como em uma repartição, na caixa de entrada o cheque, na caixa de saída – o infeliz. E ainda dá tempo pra gritar: "O PRÓXIMO
!
Silvio
Você está sendo muito exigente. Uma hora? Não é muito? Já vi com “menas” como se diz no NE.
Hoje, por exemplo, vi um full estol de Saber(um daqueles vendidos a
preço de banana pelos gringos na semana passada) com o piloto escapando
de cair dentro da vela por um metro.
Passei pela Canoas às 6 da manha indo para a Tijuca. Atmosfera estável
e uma leve brisa de frente. Pensei que iria decolar tranqüilamente um
aluno marcado para as nove.
Quando passei de volta as 8 e meia, já encontrei térmica explodindo durante toda a subida do Alto pelo lado da Tijuca.
Imaginei duas coisas: Vento Sul (que otimista) com térmicas de rotor a sotavento ou vento de quadrante Norte. Talvez NE.
Ao passar pelo viaduto das Canoas descendo vi que era NE puro e forte
na altura da rampa (tanto a biruta do Cerezo no topo da Agulhinha como
as da rampa estavam óbvias). E tinha um paraca todo embolado na
decolagem. Provavelmente por ação de uma rajada mais forte de cauda. A
biruta, esticada "de frente para a cauda" como soe afirmar um voador
daqui. Não entendi nada, mas desci já sabendo que era mais um dia
perdido. Pelo menos, para mim.
Na praia já vi que o paraca havia decolado e outro se preparava.
Deste, só vi o final com o piloto quase caindo dentro do velame no meio
do caminho para a praia. Não sei o que houve. Colapso com reação
espasmódica de estivador? Mas que foi por pouco foi. Ia ser igual ao
Ricardo de Gramado.
Desconfio que eram alunos. Ambos. E de Saber.
São Conrado enfrentando mais uma vez o Dragão da Maldade saiu vitorioso.
Conheço pouco o Saber. Voei com ele uma vez no Sul. Achei-o muito
tranqüilo, dócil e ágil. Homologado Performance, não lhe conheço os
detalhes de homologação (algo que todo piloto deveria olhar, mas a
maioria não se interessa e simplesmente aceita o que lhes é dito - num
parapente Performance, é fácil saber porque ele não passou Standard).
O que posso dizer do pouco que o conheci é que é um paraca que pode ser
voado por piloto novato nas condições tranqüilas do Pepino. Desde que
esse piloto seja habilidoso, calmo, frio e controlado. Mas,
principalmente, bem formado.
Não é paraca para ser voado com NE atuante no Pepino. Aliás, nessa
condição, a maioria dos pilotos, em qualquer parapente que seja,
deveria estar batendo papo no quiosque.
É isso ai Sivuca. Aproveitei a deixa já que o fato ocorreu não tem 2 horas.
PPI
Essa
mensagem serviu de emulação então para que eu sentasse e escrevesse.
Não existe nenhuma novidade, tudo se repete e é o que vou fazer.
Repetir o que já se escreveu muito por aí.
Passados oito anos, será que as coisas mudaram?
Será que a instrução de parapente melhorou?
Será que os alunos estão sendo liberados para voar sozinhos em
condições mínimas de enfrentarem situações de emergência com segurança?
Estarão sendo “soltos no mundo” em condições de avaliar a condição
aerológica ruim de um dado momento e decidir certo que não devem
decolar?
Você, que é piloto novato, pare e reflita.
Você foi alertado para decidir decolar em função da sua experiência/habilidade e não ir na “onda do grupo” ?
Por exemplo, no caso do Rio, não ir voar em Petrópolis logo depois de
liberado? Enquanto não tiver adquirido um pouco de “hora de esquina”?
Que depois da decolagem, independente de quão seus amigos sejam os
outros pilotos, você vai estar sozinho e terá de tomar suas próprias
decisões e sair das paradas ruins por conta própria?
Que o máximo que os outros poderão fazer por você será testemunhar sobre o que ocorreu?
Foi-lhe ensinado durante o curso como usar do acelerador?
Você praticou isso incontáveis vezes supervisionado pelo seu instrutor?
Você praticou o colapso de orelhas durante o curso?
Não basta que lhe tenha sido dada uma explicação. É necessário que você
tenha praticado essas ações com bastante empenho de modo a poder
executá-las num piscar de olhos, sem perder tempo algum procurando onde
está o acelerador ou relembrando que linhas ou tirantes devem ser
puxados para fazer “orelhas”.
A pronta resposta à necessidade de velocidade, ou de perda de altura,
não pode sofrer qualquer retardo sob pena do piloto ser levado pelo
vento para trás do relevo ou ser sugado por uma nuvem.
O seu instrutor supervisionou a instalação do acelerador na sua selete e checou a sua regulagem?
O seu instrutor já o chamou depois de algum tempo voando no Pepino,
após a liberação, para fazer estol de B ou colapsos assimétricos sob
controle dele?
Você já perguntou ao seu instrutor o que é SIV e se ele já fez ?
Você, quando liberado, foi orientado a não sair do Pepino e ir voar no interior antes de alguma experiência?
Não faz muito, um piloto se acidentou no Pepino com conseqüências
fatais, levado pelo vento para trás do túnel. Não se sabe o que
aconteceu, mas certamente, alguma bobeada ele deu no uso do acelerador,
se é que o tinha instalado.
Isso já aconteceu antes. Muitas vezes e, invariavelmente, com pilotos
novatos que, ou estavam com o acelerador sequer instalado ou o tendo, o
tinham desregulado e inútil. Ou então, tinham-no desconectado porque
não tinham a menor idéia de como usá-lo. Alguns não tinham um mínimo de
adestramento para usá-lo com presteza.
E o mais
lamentável de tudo isso é que até hoje a AVLRJ não estabeleceu um
programa mínimo de instrução a ser cumprido. Cada instrutor faz o que
bem entende, às vezes, pautado no mais primário dos argumentos.
Houve um (aquele do Céu dos Voadores que fez o vôo com a nudista em
Tambaba) que disse que nos vôos de aluno em formação não era preciso
usar acelerador e por isso ele não ensinava.
E o aluno, sempre crédulo e propenso a julgar seu instrutor como o mais
íntegro e judicioso mestre da nossa arte, o seu deus, raramente
questiona, por vezes sequer a identificando, essa omissão na sua
instrução.
Há muitos anos, mais de dez, foi sugerida a criação de uma ficha
confidencial a ser preenchida por todo aluno após o término do curso,
comentando o que ele aprendeu e o que gostaria de ter aprendido.
O assunto morreu, mas lembro de que em determinada época, chegou-se a
cobrar de cada instrutor um programa de instrução do seu curso. Lembro
bem disso porque respondi que o meu estava no MAPIL.
Essa iniciativa também não passou disso.
O SIV, por exemplo, não é exigido sequer para vôo-duplo. Para instrutor
então, nem se fala. Como pode isso ainda existir passados quase vinte
anos de parapente no Rio?
Como pode alguém ministrar instrução se não se preparou para isso? O
que responder para o aluno inquiridor quando ele perguntar sobre
emergências? Que essa parte do vôo não é comigo?
Que depois você faça um SIV?
A ABP,
tão mal falada pelas bandas cariocas, exige SIV para vôo-duplo e acho
que para instrutor também. Digam o que quiserem, mas esta é uma forma
séria de organizar o esporte.
O que diria um passageiro leigo de vôo-duplo se lhe fosse dada uma aula
completa sobre parapente e informado sobre a não-exigência de SIV para
o piloto que vai ter a sua vida nas mãos ?
Dirão alguns, os rebeldes que não querem evoluir, que no vôo-duplo a
carga-alar é tão grande que as roubadas são improváveis com
probabilidades mínimas de ocorrerem.
São os amadores que desconhecem que prevenção de acidente aeronáutico
não se faz com estatísticas e sim com ações. Se algo pode dar errado e
há como prevenir, a ação deve e tem de ser posta em prática.
Mas a situação é mais grave do que se imagina. Basta uma avaliação nas
decolagens na rampa do Pepino para se verificar que, seguramente,
metade dos pilotos antigos que decolam “alpina” não checam o velame.
E que aos alunos de muitos instrutores isso não é cobrado e que estes
já começam errado desde o início. O cheque e a correção, se necessária,
são problemas de Deus.
Como disse o Sivuca, “na caixa de entrada, o cheque” e que venha o “PRÓXIMO”.
Na
verdade, a deformidade é ainda pior. É só observar as decolagens de
duplo. Uma parcela considerável dos pilotos também entrega o problema
do cheque do velame ao Onipotente Senhor.
E este, frente à gravidade dos problemas mundiais, o delega para São Conrado.
Fica aqui a minha sugestão para que o “sangue novo” da AVLRJ rompa essa inércia de anos e anos de omissão e dê partida numa nova era.